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Os Protagonistas


Leia antes: "O Coadjuvante"

O elevador era pequeno, mais de quatro pessoas causaria certo desconforto. O rapaz se virou e encarou o espelho. Imagem turva, embaçada. Mas os cabelos continuavam ruivos. A porta se abriu num ruído que lembrava a freada de um caminhão. Assustado, fitou o homem loiro que chamara o elevador.
- Desce? - perguntou o loiro.
- É... acho que sim.
Para o ruivo, tudo era real. Ainda não desconfiara da realidade.


Sarah batia repetidamente a caneta na mesa. O quarto escuro era iluminado apenas pelo rádio relógio, que marcava em vermelho-vivo “01:00 pm”. Tomás dormia tranquilamente na cama ao lado, amarrado por cintas de couro, deitado sobre o lençol branco com peixes azuis.
O barulho da caneta contra a mesa substituía o tique-taque inexistente do relógio na parede, cujo ponteiro dos segundos deslizava sem produzir som. Algo precisava entretê-la enquanto Tomás avançava nos estágios do sono.
Correu os olhos pelo quarto, observando a mobília e os aparelhos médicos, todos assumindo a tonalidade de vermelho emitida pelo rádio relógio. Subiu o olhar para o teto e viu um pequeno ponto azul piscar incessantemente. Levantou-se e analisou a máscara de dormir de Tomás. Bem acima do nariz um LED azul-turqueza piscava, sinalizando que Tomás havia entrado no estágio de sono REM. Sarah esboçou um sorriso ansioso. Agora seria questão de minutos.
Foi até o canto do quarto e ligou a luz escura. O lugar assumiu uma cor roxo-azulada, dando certa visibilidade. Pegou um caderno de atas em cima da cômoda ao lado de Tomás. Sentou-se novamente, caderno aberto, caneta posicionada, ansiedade aumentando.
Tomás começou a mover as mãos, girando ambas lentamente no sentido horário. Os pés, presos ao colchão, se agitaram contra as cintas. Sarah teve de conter o impulso de desamarrá-lo. Algo não estava certo. Era para ser um sonho tranquilo, porém ele começou a se debater como se levasse um tremendo choque.
Sarah olhou aflita para a porta aberta, ninguém no corredor. O corpo de Tomás sacudia de tal maneira a fazer a cama dar pequenos pulos. Se continuasse assim, logo alguém seria alertado pelo barulho. Porém, subitamente, ele parou. Cessou por completo os movimentos, deixando a cabeça recair sobre o travesseiro, encarando Sarah através da máscara de dormir, que agora emitia uma constante luz amarela.
- Tomás? – sussurrou Sarah. – Você está acor...
Tomás lançou com força a cabeça para frente, aspirando brutalmente o ar pela boca, como quem tivesse passado um longo jejum de oxigênio. Tentou mexer os pés e pulsos sem muito sucesso. Estava ofegante.
- Calma, Tomás – disse Sarah, tentando aparentar serenidade e se preparando para escrever no caderno. Você precisa se acalmar ou vai se esquecer...
- Não foi do jeito que ele disse!  – gritou Tomás, ainda respirando com força.
- Fale baixo! – Sarah levantou num pulo, fechando a porta. – Quer que alguém nos escute?
- Tinha água... – Tomás se esforçava para falar. – Muita água... A cidade toda estava inundada! Eu demorei pra cair em mim... Não testei direito!
- É normal. Fazia tempo que você não induzia – Sarah começou a desamarrá-lo. – Talvez a falta de prática tenha feito você sonhar diferente.
- Não... – com as mãos livres, ele desamarrou as pernas e se sentou na cama. – Era pra ser o mesmo sonho. Começou igual. O elevador, o cara loiro... Mas quando chegamos na recepção do prédio, estava tudo inundado!
- Tomás, nós três passamos muito tempo separados. Acho que só o fato de sermos irmãos não seja o suficiente.
- Você me escutou? O início do sonho era totalmente igual! Não tinha como dar errado.
- Então por que deu errado? – ela guardou o caderno e voltou a se sentar.
- Eu não acho que tenha dado errado – sussurrou Tomás, olhando diretamente para a porta, agora fechada. Não havia garantias que o corredor continuava deserto. – Acho que ele mentiu pra gente.
- Você ficou louco, é? Pelo amor de Deus, Tomás! Ele estava morrendo, pra que iria mentir?
- Não sei! – ambos ficaram em silêncio. Nada saíra como o planejado. – Foi o mesmo sonho, juro! Só que acabei descobrindo tarde demais que não era real, e isso fez com que eu me afogasse...
Sarah coçou a cabeça e observou o irmão sobre a cama. E se ele estivesse certo? No fundo sabia que isso era possível. Levantou-se e pegou de novo o caderno.
- Aqui, tome – entregou o caderno à Tomás e começou a retirar seus sapatos. - Vamos descobrir se foi ou não mentira.
- Não, não! - exclamou Tomás, colocando o caderno de lado. - Eu induzo de novo! Não vou deixar você se afogar...
- Tomás, eu não vou me afogar. Saia logo da cama e pegue esse caderno. Você sabe que é quase impossível você induzir duas vezes seguidas o mesmo sonho do Jonas.
Inconformado, ele se arrastou para fora da cama. Pouco tempo depois Sarah estava já atada à cama, com a máscara de dormir envolvendo o rosto. Tomás se sentou e pegou a mão da irmã, apertando com força.
- Não precisa se preocupar comigo... – disse ela, tentando se relaxar. – Eu já disse que não vou me afogar. Isso porque, diferente de você, eu nunca deixei a indução. Pode ficar tranquilo. No início do sonho eu já estarei lúcida.
E o quarto mergulhou em um profundo silêncio. Tomás se preparou para uma longa espera, contudo levou um susto ao olhar para o teto. Uma luz azul piscava repetidamente.
Sarah havia entrado.


Elevador pequeno. Com mais de quatro pessoas já ficaria desconfortável. A moça não se virou para encarar sua imagem embaçada no espelho. Passou a mão pelos cabeços. Por algum motivo sabia que continuavam ruivos.
A porta se abriu repentinamente. Ela lançou um olhar assustado ao homem loiro que esperava pelo elevador. Ele parecia perdido, deslocado.
- Desce?
- É... acho que sim. - as palavras saíram mecanicamente.
O homem entrou e a porta se fechou atrás dele. Agora era só esperar. O livro estava lá embaixo, em algum lugar.
E o elevador descia levando Sarah. Rumo à cidade inundada.

Alcy Filho

No elevador




      Quem conhece o RPG, sabe que uma partida pode gerar situações e histórias muito interessantes. Alguns anos atrás, quando iniciei minha faculdade, fiquei sem tempo de reunir os amigos para jogar. Até porque grande parte do meu antigo grupo se separou, indo cada um para um curso. Demorou pra conseguirmos nos reunir novamente.
      Enquanto isso, minha vontade de jogar continuava. Nas minhas andanças pelo Google encontrei o portal RPG Online. Através de um programa de bate-papo adaptado, era possível rolar partidas de RPG sem sair de casa. Não seria a mesma coisa, mas quebrava o galho. Procurando salas de jogo, encontrei uma Mestre, a Isis Bianca, interessada em narrar uma história curta, uma espécie de conto, em que cada participante descreveria as ações de seus personagens. Outro jogador e eu fomos escolhidos para a primeira sessão. No bate-papo tínhamos os apelidos de Makal e Kenrious, respectivamente. Escolhemos então os nomes dos nossos personagens (ele descreveria falas e ações do Marcos, e eu as do Nenzi, que agora mudou para Daniel). Todas as descrições do ambiente, e como ele reagia às nossas ações foram descritas pela Isis. Nossa sintonia em criar a história foi enorme, e culminou no conto "No elevador", publicado no portal RPG Online.
      O conto abaixo é o mesmo, contando com poucas alterações (como o nome do meu personagem). Espero que gostem ;)


      Um elevador, um prédio de escritórios. Trabalho, problemas, cansaço, tarefas sem fim que parecem tornar qualquer sinal de humanidade tão distante quanto um sonho. E então, um solavanco, e dentro da caixa de metal dois estranhos estão presos. Estranhos? Nem tanto. Já se viram ao certo, mas, na correria, são apenas dois autômatos, dois rostos na multidão. Mas agora não há multidão. As tarefas e a loucura do cotidiano parecem ter parado junto com as engrenagens do maquinário. Talvez constrangimento, talvez nervosismo, mas estão sós, os dois, presos num elevador.
      Marcos leva as mãos à cabeça, em um ato de cansaço e desespero. "Não, agora não. Por que isso?". Virou-se, apertando mais algumas vezes o botão que levava ao térreo, sem sucesso. Suspirou e se encostou com desânimo na parede do elevador. Daniel tenta não olhar para o lado. "Logo hoje..." pensa. "Preciso sair daqui". E procura um botão de ajuda no elevador. O botão cede em vão. O elevador não se move. Apenas um som surdo ecoando pelo fosso escuro abaixo e acima. O ar ali é parado, a luz, estéril e fria. No espelho do fundo, como se outros dois estivessem em posição semelhante, em um outro universo improvável.
      Marcos diz: - Espero que não tenha muitos compromissos hoje. Algo me diz que isso vai demorar... Ele se senta no chão do elevador, suspirando, desanimado.
      Daniel olha para o teto procurando algo. Como se quisesse achar uma saída. De soslaio, observa o estranho. "Realmente não posso ficar aqui...", pensa. Respira fundo e encara o sujeito: - Tem um cigarro? - pergunta.
      Marcos sorri. - Não fumo camarada... E acho que aqui não seria uma boa ideia. Iriamos morrer sufocados - olha em volta, vendo que a ventilação ali é mínima - Já vi você algumas vezes por aqui... Trabalha em que setor?
      Daniel volta a olhar para o teto. - Não trabalho aqui... Tem certeza que não tem um cigarro?
- Só se alguém colocou algum na minha calça... - puxa os bolsos da calça para fora, deixando-os do avesso - Realmente, nada... - suspira.
- Ah...Um bom cigarro nessas horas alivia. É uma pena não fabricarem elevadores para fumantes... "Se eu gritasse, alguém ouviria? Acho que não...", pensa Daniel. Ele se senta e observa o outro, sem desviar o olhar.
- Humm... Acho que venderia, ao menos - diz Marcos. - Não sei qual a graça em fumar. É fedido, faz mal, e te faz gastar grana. Qual a vantagem?
- Não sei... Não fumo. Mas nessas horas, penso em começar.
Marcos ri: - Essa foi ótima... Mas, se não trabalha aqui, o que veio fazer?
- Preciso falar com alguém...
- À trabalho?
      "Ele acertou...", pensa Daniel.
      No intervalo entre as palavras, o zumbido da luz. Um som antes mal percebido, pode ser quase insuportável agora, se você não puder com o silêncio. Talvez por isso a busca pelas palavras, mesmo que sobre o nada, sobre algo que pode não fazer a diferença. No relógio, mais um minuto passa. Mais um minuto de suas vidas, se esvaindo a cada segundo.
      Daniel diz: - Qual o motivo disso? Dois estranhos em um elevador. A quê isso leva?
- Não sei... - diz Marcos. - Li um livro uma vez em que dois estranhos ficavam presos no elevador. Eles aprendiam lições que mudariam radicalmente a vida dos dois. Bem, não acho que seja igual aqui, mas é interessante a ideia.
- Não penso que você tenha algo a me ensinar.
      Marcos sorri. - Todos temos cara! Todas as pessoas tem algo para ensinar, e que te faria ficar pensando durante horas... Ou anos...
      Daniel se levanta e começa a bater o pé com força no chão. - Isso te ensina algo?
- Sim... Que posso confiar nos fabricantes de elevadores. - Cruza os braços, suspirando outra vez.
      O som retumba no vazio do fosso e o elevador balança, sustentado pelos cabos de aço. Daniel para e olha novamente para o estranho, agora com um sorriso no rosto: - Se morresse, alguém sentiria falta de você?
      E mais um minuto se passa, sem que haja sinal de qualquer mudança, a não ser as que eles puderam causar. Os últimos ecos dos chutes de Daniel ainda se ouvem, fracos. Marcos diz: - Talvez... Mas acho que eu é que mais sentiria falta de mim mesmo. Talvez algum amigo, se é que tenho algum de verdade. Não sei...
- Amigos... Só servem pra nos trair e revelar que amizade não existe. - diz Daniel.
- Humm... Alguma lembrança amarga? - pergunta Marcos, fitando-o com atenção.
      Daniel encosta na parede. - Lembranças? Prefiro não guardar. No espelho, o outro Daniel encosta também. - Afinal, todos morrem, não é mesmo? Pra que guardar lembranças de futuros mortos?
      No relógio, os segundos piscam implacáveis.
- Exato, todos morrem. - diz Marcos. - Mas enquanto vivemos, temos nossas lembranças. Elas nos mantem vivos. Como acha que seria se acordasse todo o dia sem lembrança alguma? Imagine levantar de manhã e não saber nada de nada. Nem seu próprio nome, ou de onde veio...
      "Isso não vai me levar a nada... Será que chego a tempo?". Daniel se arrasta na parede até se sentar no chão.
- Na verdade, eu me lembro de algo. Lembro dele ainda vivo... Seu sorriso era o único que conseguia me contagiar. - abaixa a cabeça.
- Um parente? - pergunta Marcos, atento.
- Parente? Não... Acho que nenhum parente teria me feito tão feliz - Daniel levanta a cabeça. - Sabe, amizades estão fadadas a terminar. Não quero mais iniciar algo com fim pré-determinado.
- Então porque vive, se a vida tem um fim pré-determinado?
      "Acho melhor desistir! Não vão me deixar entrar...", pensa Daniel. - Está dizendo para eu cometer suicídio?
      À luz fria, os dois homens sentados, no chão de uma caixa de metal pendurada no meio de uma construção de aço e concreto. No entanto, estão vivos, e é como se uma fina abertura se abrisse na casca que repousa sobre a realidade, sob a qual todos buscam manter a vida muito bem escondida e... congelada.
- Só estou dizendo que você está encarando as coisas de modo errado. Não temos que pensar que algo está fadado a terminar. E sim fazer valer enquanto durar. - diz Marcos, e suspira.
- É o que estou tentando - Daniel passa o dedo no chão. Como se desenhasse algo.
      Marcos se mantem silencioso por um tempo. Então pergunta: - Qual era o nome dele?
- Carlos... Meu melhor... - "Amigo", pensa. Daniel abaixa novamente a cabeça. Algo começa a pingar no chão.
      Marcos olha para o teto, como se pudesse ver através dele e admirar o céu e as estrelas. - Valeu a pena? A amizade? - pergunta.
- Naquele tempo sim. Mas agora é inválida - Daniel se levanta de repente. Enxuga os olhos. - Odeio essas ceninhas sentimentais.
      Por fim, um solavanco, e o elevador recomeça a jornada rumo ao seu destino. E qual seria ele? O trabalho, o tédio, o apressado corre-corre, eclipsando a luz das estrelas, e até mesmo a do sol, por trás de coisas inúteis que todos perseguem como moscas? Rumo a amores perdidos, impossíveis, malfadados e improváveis? Ou rumo a um outro elevador, apenas maior, e mais abarrotado?
      Daniel se endireita e olha para a porta do elevador. Marcos pergunta: - Mudaria algo? Faria diferente se pudesse voltar atrás? Teria escolhido não tê-lo conhecido? - Agora fitava Daniel, sério, mas atencioso, compreensivo.
- Nunca escolheria algo assim...
      O elevador caminha e os números mudam no mostrador. E mais um minuto. Daniel suspira e olha para o teto. Marcos levanta-se, sorrindo, de um modo satisfeito e amigável. Aproxima-se, ficando de frente para a porta e ao lado de Daniel. Coloca a mão em seu ombro. - Então valeu a pena. São essas lembranças que te fazem humano.
      Daniel olha para o homem e dá um profundo sorriso. Seus olhos em paz.
      E a porta se abre. Olhares impacientes de outros usuários que esperavam sua vez e um técnico que, ainda abaixado ao lado do painel de controle do elevador, ri nervosamente, mas satisfeito, pois seu trabalho estava concluído.
- Bem vindos de volta...

Isis Bianca, Makal e Kenrious (Alcy Filho)

Lábia

Lábia
        
         Naquele dia percebemos que haviam colocado um relógio na parede. Era o clássico gerador de tic-tac’s, que treme o ponteiro ao passar pelos segundos. A aula: Sistemas Operacionais. Iríamos repor um horário que não tivemos, então veríamos slides atrás de slides nas próximas 3 horas.
         Olhei pro lado e vi que todos dormiam. Alguns não fechavam os olhos, mas era visível que não prestavam atenção em nada. Eu mesmo me peguei encarando um pequeno besouro que subia pela moldura do quadro. Quando chegou ao topo, começou a voar pela sala, até pousar no cabelo do professor, que mal percebia o que acontecia ao seu redor, e continuava dando aula. Foi então que o besouro decolou novamente e veio direto para a minha carteira, pousando na capa do caderno de Sistemas.
         Ele tentava se equilibrar nas aspirais, aos poucos se virando para mim. Quando conseguiu, ficou alguns momentos me “encarando”. Os tic-tac’s do relógio pareciam marteladas. Então, sem pensar muito (na verdade, sem pensar), falei:
- Entediado?
         O professor olhou pra mim, mas voltou a explicar a matéria.
- Muito...
         “Hã?”. Alguém havia me respondido. Olhei para os lados, mas todos pareciam mergulhados em suas próprias ilusões.
- Pena que não tem videogames aqui.
         Ok, era o besouro falando comigo. Eu me aproximei dele e cochichei:
- Você joga videogame?
         Era aula de Sistemas Operacionais, todos estavam delirando. Conversar com o besouro era lucro.
- Só jogo os clássicos – respondeu ele.
- Então não conhece os novos consoles?
- Sou mais os emuladores.
         Olhei para o relógio, que parecia demorar 1 minuto pra cada segundo. Uma eternidade ainda pra acabar a aula.
- Você está me escutando? – perguntou o inseto.
- Sim, mas não consigo levar isso a sério.
- Talvez se eu me aproximasse mais, poderíamos conversar melhor.
         “Aproximar?”, pensei desconfiado. Nunca gostei muito de besouros. Pra que iria deixar que se aproximasse?
- Se eu ficar na sua orelha, podemos conversar sem perigo de alguém ver que você está conversando com um besouro.
         É, talvez não fosse uma má idéia.
- Pode subir – falei.
         O besouro levantou vôo e pousou na minha orelha e começou a passear por ela, pregando e despregando suas pequenas garras, até ficar perto do entrada do ouvido.
- Sabe, você tem um belo ouvido... E, pelo que eu vejo daqui, um labirinto tentador. Sempre gostei de resolver labirintos. Acho que consigo este.
         Ele começou a andar para dentro do ouvido e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já tinha entrado. As marteladas dos tic-tac’s se uniram ao zumbido do besouro no ouvido, tentando resolver meu labirinto.
         E foi assim que entendi como eles entram nos ouvidos das pessoas. É a lábia dos besouros.

Alcy Filho

A Última Fala





De tudo que ocorria no culto, a parte mais esperada para Bruno era a última fala do pastor. Membros e convidados se levantavam e saíam da rotineira indiferença social para iniciar a sessão de cumprimentos. Alguns se limitavam aos bancos mais próximos, enquanto Bruno preferia explorar todo o templo. Afinal, aquele era um período muito rápido, mas também oportuno pra conhecer os membros. Ele mesmo não havia entrado no rol de batizados, mas os visitantes o viam como membro de longa data, um verdadeiro anfitrião. Isso porque ele se concentrava mais nos que ainda não se sentiam confortáveis no meio cristão.
Pois bem, quando completaram trinta dias que Bruno tinha colocado os pés no templo, eis que este não aparece no domingo. Ninguém sentiu nada de anormal. Isso apenas até a última fala do reverendo. Uma senhora percebeu a ausência de Bruno e logo a notícia correu. Porém ninguém sabia seu nome, pois ele nunca se apresentava, sentindo-se obrigado apenas em deixar os convidados confortáveis. Passou-se o dia, até que a fatídica notícia fosse dada.
No culto à noite a igreja se calou e escutou do reverendo que Bruno havia morrido de infarto fulminante enquanto dormia. Um burburinho tomou conta do templo, até que uma garota se levantou e pediu a palavra.
- Quando cheguei à igreja, poucos me acolheram. Dentre esses estava o Bruno, que todo domingo chegava com um sorriso e perguntava como tinha sido minha semana e se deixava à disposição para qualquer coisa. E foi por causa da hospitalidade dele que eu não desisti da igreja.
Enquanto a moça ainda estava de pé, um senhor se levantou e, pausadamente, disse como Bruno o havia recebido e acolhido. Essa atitude fez com que várias pessoas deixassem os bancos e dessem seu depoimento, todos sobre Bruno. Os membros da igreja, assustados, tentavam lembrar do falecido, mas poucos se recordavam. Isso porque suas consciências pesavam, pois além de não se lembrar de Bruno, também não se recordavam da última vez que haviam verdadeiramente acolhido um visitante.
Assim foi a estadia de Bruno na igreja. Bastou um mês para que mais de trinta pessoas se firmassem na fé. Sua atitude foi recordada por muito tempo por aquela igreja, que precisou perder um dos seus para amolecer o coração e abrir caminho não apenas para o templo, mas também ao corpo de Cristo.

Alcy Filho


Imagem: vnduan

Um inusitado movimento





Numa manhã como outra qualquer, num país corrupto de primeiro mundo, todos os políticos acordaram sob a mira de revólveres. Uma força-tarefa, idealizada em certo website, abrangeu cada município da evoluída nação. Os jornais noticiavam “Líderes ameaçados”, “Pânico na política”, “País em crise”. Nas ruas esse era o assunto da vez.
- Ficou sabendo?
- Do quê?
- Os políticos foram seqüestrados.
- Ah, não me dê falsas esperanças.
- Estou falando sério, veja!
- Deus do céu, é verdade mesmo? Quanta crueldade!
O mais famoso telejornal noticiava o vídeo entregue pelos seqüestradores. Na gravação, um senador lia uma carta, enquanto fuzis miravam seu crânio.
- Hoje fomos presos e sentenciados – leu o homem de terno, suando. – Sabemos que somos mentirosos por natureza e merecemos o mais alto castigo – ele parou um momento antes de continuar. – Pedimos que a polícia não tente nos resgatar. E não vamos pedir perdão por nossos erros, para que não haja chance de redenção.
Muitos que assistiram à transmissão ficaram com pena do senador que lia sua própria sentença de morte. Outros ficaram indignados pela coragem dos líderes em pedir que a polícia não se envolvesse. E muitos ainda concordaram com o mais alto castigo aos políticos, já que eles mesmos não queriam pedir perdão pelos erros. Já o restante dos espectadores resolveu mudar de canal e assistir a novela.
O fato foi que a força tarefa não durou muito tempo. Os integrantes começaram a se questionar o que aconteceria depois. Se realmente valeria a pena seguir com o plano. Protestos surgiram na rede mundial, em prol da soltura dos vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores e, principalmente, do presidente.
E foi na primeira brecha encontrada pelo exército (já que a polícia havia sido descartada pelos reféns) que os seqüestradores foram encurralados, presos e sentenciados.
Metade dos criminosos foi parar na forca. A outra metade lotou as raras prisões de segurança máxima do país de primeiro mundo.
O líder máximo da nação lamentou o ocorrido e abriu uma investigação para apurar os fatos. Deste modo, toda terça-feira os políticos saem de suas casas e se dirigem às câmaras e senados para participar da mais nova CPI em andamento. E no restante da semana descansam. Mas engana-se você se pensa que fazem isto por menosprezar o cargo que exercem. Os políticos em seu descanso refletem sobre a vida. Sobre o que fazem, se é certo ou errado. Sobre o porquê da população nunca estar contente e sempre querer mais. E é nesse momento de juízo que afloram os pensamentos de esquerda, direita e mercenarismo. É daí que novos partidos brotam, novas idéias afloram e novos desistentes se afastam do cenário político.
E dizem por aí que estes afastados criaram um movimento. Parece algo novo e inusitado. Comunidades on-line só falam nisso, bolando estratégias e recrutando adeptos. Segundo fontes, antigos simpatizantes do senado estão formando um verdadeiro exército para seqüestrar e executar todos os líderes políticos.
Tal informação chegou aos ouvidos das autoridades, mas, sinceramente, para que se preocupar? Todos sabem que seria uma força-tarefa impossível de se cumprir e, caso acontecesse, a polícia estaria de prontidão para atuar diante do fato. Ora, o país em questão é civilizado, sem dívidas nem corrupção. Formado por pessoas de bom caráter e índole ímpar. Deviam é se orgulhar dos líderes que o próprio povo retirou do palanque. Afinal de contas, não estamos falando de um país de criminosos, mas sim de uma evoluída nação de primeiro mundo.

Alcy Filho

O Coadjuvante





Quando acordou imaginou que ainda dormia. Belisco aqui e ali, os olhos abertos. Não parecia estar dormindo. A mulher apareceu na porta, visivelmente confusa.
- Que dia é hoje? – ela perguntou.
- Não sei. Parece sábado. É, tem cheiro de sábado.
A estranha sensação continuou durante o lanche da manhã. O homem terminou de comer, penteou os cabelos louros e deu um beijo na esposa.
- Tem certeza que hoje é sábado? – perguntou ela antes que ele fosse embora.
- Não, e você?
Ela não respondeu e o homem não insistiu. Seguiu para o elevador e apertou o botão, que ficou vermelho e depois verde.
- Desce? – ele perguntou ao homem ruivo parado no elevador, o qual se assustou e ficou um tempo mudo. Então falou:
- É... Acho que sim.
Desceram boa parte dos andares sem ouvir a voz do outro. O homem ruivo parecia inquieto e inspecionava cada parede do elevador, movendo os olhos de pressa.
- Nós não nos conhecemos, não é mesmo? – perguntou o homem louro de repente.
- Pelo visto, não – respondeu o ruivo.
- Já não teve uma sensação de ter acordado, mas continuar sonhando?
- Como num sonho dentro de um sonho?
- Exatamente.
- Eu mentiria se dissesse que não.
De súbito os dois olharam para o chão do elevador que começava a inundar. Água entrava pelas portas que começavam a se abrir. O homem ruivo, desesperado, forçou as portas para fugir dali, já o louro, atônito, enfrentou a água e foi seguindo o desconhecido.
Os móveis da recepção boiavam e passavam pela entrada principal. Os homens saíram do prédio e nadaram até a avenida principal. A cidade tinha sido invadida pelas águas e pessoas por todos os lados nadavam procurando abrigo. Enquanto a maioria tentava entrar nos prédios, fugindo da enchente, o louro e o ruivo continuavam a adentrar a avenida, até que chegaram a um cruzamento.
Eles pararam, batendo com força os pés para não afundar, e olharam um edifício enorme. Nada mudava. As pessoas passavam desesperadas e subiam em carros e ônibus.
Foi então que algo mudou. O nível da água começou a subir. Todos pararam de nadar, vislumbraram uma onda gigante abater o edifício logo à frente. O homem ruivo começou a ofegar. Sentiu os olhos pesados, coração ritmar e o desespero a tomar conta.
- Agora sei que é um sonho! - gritou.
A onda se aproximou. O louro ficou em estado de choque e começou a afundar.
- Tenho certeza que é um sonho! – continuou o ruivo. – Tenho que acordar...
Finalmente a onda engoliu a todos. O louro observou de longe o ruivo sumir nas águas. Nenhum sentia a falta do ar. Apenas percebiam a escuridão que se formava ao redor.


Quando percebeu já estava na cama, acordado. Levantou e se olhou no espelho. Continuava louro. A mulher apareceu no quarto, perdida na própria casa.
- Acho que hoje é sábado – ela disse, olhando pra janela.
- É mesmo – concordou o marido. – Tem cheiro de sábado.
O homem louro terminou de lanchar, despediu-se da esposa e se dirigiu à porta, quando lhe surgiu a dúvida.
- Tem certeza que hoje é sábado?
- Bem, agora que você perguntou... – respondeu a mulher. – Parece que o sábado já passou.
O botão do elevador ficou verde e as portas se abriram. O homem louro viu uma mulher ruiva encostada no espelho, observando o teto.
- Desce? – perguntou ele.
Ela se assustou e encarou o homem.
- É... Acho que sim.
Ambos desceram calados, para fora do prédio, rumo à cidade inundada.

Alcy Filho

Leia também: "Os Protagonistas"

Imagem: Pens Eye

O grande dia





Começou a chover forte lá fora. Estava frio, muito frio. Ana limpou a janela embaçada e observou o homem na calçada. Ele parecia calmo e retirava suas luvas de couro pacientemente. Jogou-as em uma lata de lixo e abriu o guarda-chuva.
Ana bocejou e saiu de perto da janela. Ainda sentia sono. O barulho da chuva ajudava muito. Mas não conseguia mais dormir. Tivera um sonho ruim com gritos e tiros. Acordou assustada e foi para a janela se acalmar. Amanhã era o grande dia, não podia sofrer emoções fortes. Tinha de se preparar.
Ela se sentou na cama e arrastou as pantufas com o pé, alinhando-as. Mergulhou os dedos na pelúcia e se levantou. Foi até a porta do quarto e se observou no espelho. Só conseguia enxergar do pescoço para cima. Ergueu os braços para o alto e agarrou a maçaneta. Girou com força e abriu a porta. Ainda estava se acostumando a dormir no seu próprio quarto. Acordar sozinha, abrir a porta sozinha, era tudo novo.
O corredor que levava para o escritório do pai estava silencioso. Nada do conhecido barulho das teclas do computador. Então ela se lembrou da corrida. Ele devia estar assistindo a corrida na televisão.
Ana foi até a escada e pôde ouvir o som de carros em alta velocidade. Desceu com cuidado os degraus em espiral. Foi passando a mão pelo corrimão. Bocejou.
- Filha? – uma voz rouca veio lá debaixo. – Ah, meu Deus!
Ela desceu o último degrau e viu o pai deitado no sofá. Ele apertava firme o lado esquerdo do peito, coberto de sangue.
- Você se machucou, papai? – ela perguntou, correndo para ele.
- É, Aninha. O papai está muito machucado... – ele gemeu e apertou forte o peito. – Dá um abraço no seu pai.
Ana pulou no sofá e deu um forte abraço no pai, fazendo-o gemer. Lágrimas caiam dos olhos dele.
- Você está sangrando muito, papai. Quer que eu sopre?
Ele acenou que sim. Ana abaixou-se e soprou o peito do pai, encostando os lábios nas mãos dele.
- Fiquei toda suja – ela resmungou, limpando a boca na manga do pijama.
O pai tentou se endireitar no sofá, suspirando cada vez mais forte.
- Minha filha, o papai não está bem.
- O que aconteceu? Você se cortou?
- Não... Eu só estou doente e não vou poder ver você se apresentar amanhã... – ele começou a chorar e olhou para a porta da frente, como se procurasse alguém.
- Mas amanhã é o grande dia! Por que a gente não vai ao hospital? Daí o médico cuida de você.
Ele apertou mais forte ainda o peito e olhou firme a filha.
- Você sabe que eu te amo, não sabe?
- Sei... – ela disse, olhando o sangue que começava a se espalhar pela camisa. – Vou pegar algodão na cozinha.
- Não, não! - ele gritou, puxando Ana para si. – Apenas escute, minha filha. – ele abraçou-a e tentou abafar o choro. – Eu te amo muito. Quero que grave isso e nunca se esqueça. Sempre que se sentir triste, é só fechar os olhos e imaginar que estamos assim, abraçados.
A menina fechou os olhos. Pensou em muitas coisas. O concerto de canto. No machucado do pai. No abraço dele. Bocejou. Os pensamentos foram se perdendo. A chuva lá fora, os gemidos do pai. A sirene que começou a tocar. E Ana dormiu.
Sonhou que estava cantando. E na primeira fila seu pai sorria, batendo palmas. Tudo estava perfeito. Nada de gritos, nem tiros, nem machucados. Exatamente do jeito que o grande dia deveria ser.

Alcy Filho


Imagem: Lilla Miranda

Mãe, posso dormir no seu quarto?






- Não, Maria. Hoje você vai dormir na sua caminha, ok?
A garota soluçou e abaixou a cabeça. A luz do abajur iluminou as lágrimas que escorriam por seu rosto.
- Maria, olhe pra mim - disse Clara. - Não tem nada no seu quarto. Já procurei debaixo da cama, dentro do armário, no banheiro…
- Mas não olhou atrás da cortina - interrompeu a menina, soluçando.
- Está bem. Se eu olhar atrás da cortina, a senhorita dorme na própria cama?
- Sim…
Clara calçou os chinelos e segurou a mão de Maria, estava gelada. As duas saíram para o longo corredor. Os grandes quadros nas paredes pareciam vigiá-las. Estavam por toda parte.
- Essa casa é mal-assombrada - falou Maria.
- Por que acha isso? - perguntou Clara, virando à direita para um novo longo corredor.
- Os quadros conversam comigo, mamãe. Quando eu ando aqui sozinha, eles perguntam meu nome.
- E você responde?
- Não… Mas isso me dá arrepios.
- Quando eu tinha a sua idade também pensava ouvir vozes. É uma coisa que a nossa cabeça cria para não nos sentirmos solitárias. Não deve sentir medo da sua imaginação.
As duas pararam em frente a uma porta no fim do corredor.
- Por que eu tenho que dormir tão longe do seu quarto? - disse Maria.
- Porque já é uma mocinha e são os únicos quartos da casa.
- Pra que serve uma casa do tamanho de um quarteirão que só tem dois quartos?
Clara abriu a porta e as duas entraram. O quarto não era nem um pouco infantil. Havia pinturas surreais por todos os cantos, o guarda-roupa era de mogno, enorme. As cortinas tinham uma aparência estranha, como se fossem de madeira. A cama rosa de Maria, com edredons ilustrados com flores, não se encaixava no resto do quarto. Tudo ali tinha um ar antigo. Maria soluçou mais uma vez.
- Por favor, mamãe. Eu não quero dormir aqui.
- Nada disso. Vamos cumprir o trato… - disse Clara, abrindo as cortinas e balançando-as. - Viu, minha filha? Não tem nada aqui.
- É porque é invisível - falou Maria.
- Já chega - Clara encaminhou a menina para a cama. - Você já viu que não tem nada aqui. Que tal descansar agora?
- Mas e a coisa, mãe? Ela não pára de falar comigo.
- O que eu disse sobre a sua imaginação? Não tenha medo dela, ela faz parte de você.
A mãe beijou a filha e saiu, fechando a porta. Maria ficou olhando a janela, esperando algo acontecer.
- Ela já foi? - perguntou uma voz aguda vinda de debaixo da cama. - Não quero que ela me veja.
Maria puxou o edredom para cima da cabeça e fechou os olhos, tremendo.
- Não quer falar comigo? Eu só queria conversar.
- Vá embora… - sussurrou a menina. - Eu quero dormir.
- Está frio lá fora… Posso ficar aqui, quietinha?
A menina abaixou o edredom e abriu os olhos lentamente. Não havia nada ali. Seu corpo tremia, não queria fazer aquilo.
- É só a minha imaginação… - disse baixinho. - Não preciso ter medo de você.
Ela pulou para o chão e olhou debaixo da cama. Estava claro, pois a janela permanecia aberta. Ela pôde ver uma boneca de porcelana de cabelos marrons e cacheados, usando um vestido que seria branco se não fosse a poeira do chão. Maria suspirou aliviada e pegou a boneca. Tirou o excesso de sujeira do brinquedo e pulou de volta para a cama.
Ficou brincando com a boneca por algum tempo. O sono foi chegando, as pálpebras foram se deixando cair. Maria dormiu tranqüila abraçada a um retrato de madeira, sujo e rasgado. Retrato de uma menina de vestido branco e cabelos cacheados, com um sorriso no rosto. Parecia feliz em estar ali ou, simplesmente, sentia o forte abraço da menina.

Alcy Filho


Imagem: Gabriela Camerotti

Mundo Irreal






Daíma olhou para o lado e fechou os olhos novamente. Não queria acordar. Os sons da floresta queriam levá-lo de novo para seus sonhos, para seus delírios. Mas ele precisava se preparar. Era dia de mudança. Seu grupo iria deixar o terreno e desbravar a mata para encontrar um novo lar.

O sol da manhã ultrapassou as folhas de bananeira, focando seus olhos negros. As crianças brincavam ali perto imitando sons de bichos. Daíma se levantou e foi ao rio se purificar. Era preciso renovar as forças para o trabalho. O Rio Caminho, como o batizaram, emprestava suas águas para homens e mulheres se lavarem. Eram seis adultos e cinco crianças. Todos pareciam ter acordado há pouco tempo.

As mulheres se uniram para sair pela mata, colhendo o que sobrara de frutos para a viagem. Os homens se dirigiram às casas e começaram a desmontá-las. Ao passo de uma hora todos estavam prontos para seguir pela mata.

Não havia pais nem mães. As crianças brincavam com todos, sem se apegar a ninguém em especial. Mas elas não se atreviam a se dispersar dos adultos. Sabiam que as árvores escondem perigos atrás de cada folha.

Sempre um do grupo ficava responsável por ir à frente. Hoje este cargo era de Daíma. Ele ia quebrando galhos e afastando obstáculos, sempre atento à perigos, como cobras e onças. Mas o que ele mais temia encontrar era outro grupo. Em toda sua vida, ele nunca conheceu outras pessoas, apenas seu grupo. E a tradição deles era de que o mundo era suas casas. Quando deixavam um lugar, esse deixava de existir. Eles eram os únicos habitantes de seu mundo.

O caminho estava difícil. A mata fechada revelava plantas cheias de espinhos, difíceis de cortar. Daíma olhava atento para os lados, esperando sempre encontrar um animal ou outra clareira desabitada. E foi isso que ele encontrou. A clareira tinha uma fogueira de pedras ainda com sinais de fumaça e algumas folhas grandes cobrindo o chão. Daíma ficou paralisado ao ver um estranho recipiente. Parecia um cesto de material estranho e áspero. Resolveu olhar dentro. Encontrou instrumentos de corte, pós coloridos e outros tantos objetos que não conhecia. Ele enfiou a mão mais adentro e pegou um pedaço de metal brilhoso, que parecia retratar as copas das árvores. Daíma virou o objeto e contemplou sua imagem refletida nele. Assustado, deu um pulo para trás, deixando o espelho cair no chão.

Ao levantar, seus olhos se depararam com uma estranha visão. Parecia um sonho. Uma mulher com vestes desconhecidas estava parada ao lado de uma árvore, olhando para ele. Lentamente ela se aproximou do cesto e fechou-o, sem retirar o olhar de Daíma. Depois começou a recuar até o fim da clareira. Sem esperar, a mulher se virou e deixou Daíma sozinho.

O vento acordou-o de seu devaneio, trazendo de volta o barulho da mata e do grupo chegando.
Daíma não contou o que viu. Não falou sobre a mulher à ninguém. A visão ficaria para trás, como todos os lares que havia abandonado.
Era hora de construir um novo mundo.

Alcy Filho


Imagem: lucanicae