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Tesouro na calçada


Deixou o tesouro na calçada.
Hesitante, não sabia ao certo se queria abandoná-lo.
Tantos sentimentos sem coerência insistiam em lhe confundir.
E o tesouro lá, na calçada.
Era pequeno seu tesouro.
Contudo, nele via luz sem igual.
As lágrimas desciam lhe ofuscando a visão.
Quem estaria mais indefeso, ele ou o tesouro?
Talvez pensasse em como seria de agora em diante.
Alguém merecedor certamente o encontrará, pensou ele.
Caminhou, e sem olhar para trás, deixou o tesouro lá, na calçada.
Um dia, quem sabe, ele descubra que o tesouro e ele eram iguais.
Sim, existiam pedrinhas de sujeira no tesouro também.
Sim, seu coração poderia refletir igual luz.
Terá então achado a fonte, o mapa do tesouro.
Fará o caminho de volta?

O mundo acorda cedo



Hoje senti o cheiro da manhã
Fui mais rápido que o sol
Cheguei na hora devida
E percebi não estar só.

O velho senhor pairava na esquina
Esperando pelo pão
Que sai cedo, acaba cedo.

Só então é que voltei otimista
O silêncio gritando ao redor
E as ruas me inclinando para frente.

De uma coisa eu sempre soube:
O mundo acorda cedo.
Decidi acordar também.

Alcy Filho

Imagem: John of Dublin

Orquestra de pés





Os olhos tentam abrir
Inchados, doloridos.
Pés chutam
Esmagam
Pisam.
Uma sinfonia irregular
Que quebra ossos
Quebra óculos.
Sinto sangue nas mãos
Nos pés
Na boca.
Ouço gargalhadas, gritaria
Toca o sino da escola
E finalmente cessa.
A orquestra de pés se afasta
Risos, palmas
Todos de pé
O espetáculo acabou
Próxima sessão:
Amanhã e depois, e depois.
Alguns apelidam:
Billy, Bolly
Bully, Bullying.

Eu chamo pelo nome:
Crueldade.

Alcy Filho

Jogo de palavras




Penso em fazer poesia
Apenas penso e desisto
Pois clichês e pieguices
E sentimentos sem sentido
Enchem meus versos
E destroçam minhas idéias.

Penso em fazer poesia
Apenas penso
Pois o que crio é um jogo de palavras
Tosco e redundante
Que de poesia, só tem as rimas.

Alcy Filho


Imagem: Kuriru


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Depois deste poema parei de tentar me forçar a escrever. Deixemos a inspiração fluir normalmente. Quero escrever mais do que um simples jogo de palavras ;)  #revoltajapassou

Só em Ti, Senhor




Composição: Alcy Filho e Bruno Moraes
Produção: Fábio Dias
Álbum: No coração de um amigo (Bruno Moraes)

Quando forças não posso encontrar
O coração já não posso escutar
Se os momentos de dor já não posso aguentar
Tua mão me levanta
Fortalece minha fé
Cura minhas feridas
Me faz continuar

Só em Ti, Senhor
Eu posso encontrar
Esperança na dor
Forças pra caminhar...

Não me deixe esquecer
Que grandioso Tu És
Eis-me aqui, Senhor
Quero carregar a minha cruz...

Obrigado, Senhor
Obrigado, Jesus
Obrigado por Tua liberdade
Obrigado, Senhor

Obrigado, Senhor
Obrigado, Jesus
Obrigado por Teus livramentos
Obrigado, Senhor

Tenho de andar




Sempre me atraso
Tenho de andar
Não possuo asas
E nem saberia usar.

Há quem alcance
Aqueles altos edifícios
E pule de telhado em telhado
Coisa que não consigo.

Por isso caminho pelas ruas
Velhas e poeirentas
Subo por elevadores
E escadas quebradas
Todos de um tempo distante
Quando ninguém sabia voar.

Sempre me atraso
Não sei voar
Por isso tenho de andar
Sempre.

Alcy Filho


Imagem: bittertaste

Sobras secas





Quando a árvore perde os frutos
Ficam-lhe as folhas torpes, que logo secam,
E ao vibrar do vento se desprendem uma a uma
E caem sobre o solo já impuro
Formando e produzindo o fértil
Para novamente crescer e florescer em frutos.

Quem dera eu perder minhas torpes folhas secas.


Alcy Filho

Imagem: Josimar Dominguez

Rastro de pureza





Cai a chuva sobre mim
E lava as impurezas do caminho
Todo torto e sem sentido
Que não posso prosseguir.

Caem as águas sobre mim
Lavam minhas lembranças
E dizem:
"Pra que lembrar dos maus momentos,
Já que a felicidade não está na angústia,
Mas na alegria do tempo presente?"

Olho para o alto e vejo as gotas
Caindo lentamente
Varrendo o vazio inexpressivo
Deixando o rastro da pureza
Com seu neutro fluido.

Lá fora cai a chuva
Por enquanto, não me molho mais,
Deixo fluir os sentimentos
Que as antigas impurezas
Prendiam em meu coração.

E cessa a chuva.

Alcy Filho


Imagem: D.James | Darren Ryan

Decrescente






Um sorriso guarda segredos
Que nem todos querem ver.
Nesse pequeno e simples gesto
A alma se revela
Transborda em sentidos
Espalhando a todo canto
Um toque especial
Uma doçura magistral
Que se dispersa pelo ar
Construindo emoções
Cativando corações
Lamentando o simples fato
Da existência de alguém
Que na tristeza dominante
Esquece da alegria
Esquece da magia
E se torna alguém distante e infeliz
Alguém que simplesmente
Não consegue mais sorrir.

Alcy Filho


Imagem: Tampen

À noite




Desde pequeno vejo monstros
Perseguindo e gritando
Enchendo de terror a minha noite
Invadindo os meus sonhos.

Não importa o que eu faça
Eles continuam lá
Depois da esquina, atrás da porta,
Esperando eu chegar.

Não é sempre que eu os vejo
Nem sempre aparecem
Só me pegam desprevenido
Então o pior acontece.

E de manhã, quando eu acordo,
Dou um pulo de alegria
Fico satisfeito, pois é dia,
E o terror se escondeu.
Escondeu-se no escuro
No fundo da minha mente
De onde às vezes ele sai
Para perseguir-me novamente.

Alcy Filho


Imagem: Exposição do Imperial War Museum de Londres

Preito à existência




Murilo Ferraz

Às vezes penso como seria…
A vida sem problemas
Sem brigas e contendas
Sem dúvidas, só certezas,
Sem ódio, puro amor,
Sem espinhos, apenas flor,
Sem raios, plena chuva,
Sem perdas, só vitórias,
Sem violência, somente paz.
Então me vejo neste mundo
Criado por Deus, dado ao homem,
E me sinto grato pela vida
Pelo dom que o Pai me deu
De consertar o que é errado
Ensinar o que é certo
E sonhar com o perfeito.

Alcy Filho


Imagem: Murilo Ferraz

Apelo cego





Estou me afogando
Não me acho
Este mar é imenso, gélido.
Fecho-me diante das barreiras
E afundo no pensar, imaginar,
Não consigo ultrapassar
Nessas correntes sem fim
Estão atrás de mim
Posso sentir o fluido
Perseguindo meus sentidos
Calmo e agitado, nos confins do início
Correndo e fugindo do desconhecido
Batizo de estranho mar das impurezas
Que é meu amigo nessas horas
Aonde transfiro meu ódio
No tempo e no espaço
Que me cega e leva a perdição
Mas o muro é abalado
Sei que agora é o momento
Passo pela fenda
Vem ajuda da superfície
E encontro meu socorro
Do alto
E o perseguidor desiste
Não me afogo mais
Não corro mais
Estou a salvo da angustia
Longe dos becos escuros.
…
Diante do gesto simples e perfeito
Estranho ao olhar passivo
Do planeta de ídolos
Cansado de heróis
Pedindo por ajuda
Num coro de desespero
Que escutamos, não sentimos,
Estamos cegos, perdidos,
Afogados.


Alcy Filho.

Ainda chego Lá






Parede de pedras sólidas
Um pouco maior que você
Mas só um pouco
Ainda dá pra ver além
E Lá é belo, posso lhe afirmar.
Lá é sensacional
Sempre fico nas pontas dos pés
Para conseguir olhar.

Tomei como objetivo
Caminharei o que for preciso
Enfrentarei todas as curvas
E um dia, nas últimas rochas
Chegarei Lá
E vislumbrarei a sensação
De alcançar o meu destino.

Mas há de se esperar
Pois temos curvas e caminhos
E pedras para transpor
No duro caminho para Lá.

Alcy Filho


Imagem: rayphua

Eterno apego






Está frio e já anoitece
Volto pra casa, rumo à solidão
Preciso de conselho, algo que me alegre
Mas não encontro um se quer que tenha compaixão
Vejo esquinas e esquinas
Cruzamentos e desvios
Todos traem meu caminho
Levando-me para longe
Distanciam-me de meu objetivo
Preciso alcançar aquelas tardes
Donde respirava sem pensar
E diante das tuas palavras
Começava a imaginar
Como seria sem ti
Sem sua atenção para me ouvir
Me ouvir nos desabafos
Que fluíam no silêncio de um olhar
O que preciso é te abraçar
Me lembrar do teu sorriso
Que agora fica na lembrança
Penso e reflito
Sua face continua em minha mente
Tão nítida e clara nas entrelinhas
Que revelam a verdade do sentimento
Que ninguém escuta, cheira ou sente
Mas que olho bem no interior
E me recordo de tudo que vivemos
Grande amigo da infância
Tu fostes embora e não te vejo
Mas será querido para sempre
Não sairá do meu pensar
Pois de fato somos amigos
Que nem luto pode separar.

Alcy Filho


Imagem: Kah Zanon

Triste






Triste é ver e não enxergar
Caminhar e não aprender
Escutar e não ouvir
Falar e não dizer
Criar e não expressar
Tocar e não sentir
Pensar e não discutir
Receber e não doar
Saber e não crer
Viver e não amar.

Alcy Filho


Imagem: zaxl4

Nada além de rosas





O jardim acolheu o sujeito cansado
Colocou-o num canteiro de rosas
Cantou belas cantigas sobre amor
Falou-lhe sobre paixão
Citou a liberdade e explicou os ideais
Deixou cair folhas de árvores velhas
E deu exemplo da desobediência
Mostrando um tronco seco, caído perto do riacho,
Disse que é preciso aprender, e só.

O sujeito se levantou, olhou o jardim e chorou.
Derramou as lágrimas do saber e do discernimento
Livrou-se de seus direitos e vontades
Olhou para o horizonte e viu seu novo destino
Atravessou o riacho e deixou o jardim, para conhecer a vida.

Pena que a vida não sabe falar
Senão teria dito que o jardim é traiçoeiro
Teria aberto os olhos do sujeito para uma nova realidade
Revelaria que a vida não é um canteiro de rosas
Que aprender sem ponderar leva à ilusão
E que a liberdade deve ser vivida e não citada.

Pena que a vida não sabe falar
O sujeito deverá diferenciar jardins de pântanos.

Nostalgia






Sinto falta
Do meu tempo de criança
Do primeiro grande amigo
De um tempo pouco distante.

Sinto falta
Da melodia da cidade
Que em sua quietude
Grandiosa se erguia.

Sinto falta
Das belas manhãs
Do café-da-mamãe
Das tardes de sossego.

Sinto falta da saudade
Sentimento que se vai
E não deixa rastro
Saudade que falta num mundo
Que necessita de memórias.

Sinto falta
Dessa nostalgia
Desse canto na escrita
Que me permite dizer:
Como eu sinto falta.

Alcy Filho


Imagem: imapix