Tesouro na calçada


Deixou o tesouro na calçada.
Hesitante, não sabia ao certo se queria abandoná-lo.
Tantos sentimentos sem coerência insistiam em lhe confundir.
E o tesouro lá, na calçada.
Era pequeno seu tesouro.
Contudo, nele via luz sem igual.
As lágrimas desciam lhe ofuscando a visão.
Quem estaria mais indefeso, ele ou o tesouro?
Talvez pensasse em como seria de agora em diante.
Alguém merecedor certamente o encontrará, pensou ele.
Caminhou, e sem olhar para trás, deixou o tesouro lá, na calçada.
Um dia, quem sabe, ele descubra que o tesouro e ele eram iguais.
Sim, existiam pedrinhas de sujeira no tesouro também.
Sim, seu coração poderia refletir igual luz.
Terá então achado a fonte, o mapa do tesouro.
Fará o caminho de volta?

Caio e Bia


Você conhece o Caio? Claro que não. Caio nao é igual a qualquer outro garoto. Na verdade, alguns dizem que ele é feito de asfalto, e se camufla quando tem vontade.
O Caio tem o poder de fazer malabarismos na frente do seu carro, saltar de um lado para o outro, recitar um poema de própria autoria, isso tudo sem que você ao menos perceba sua presença. Nem ilusionista profissional consegue isso.
Mas Caio tem algo a mais. Ele tem sua irmã, a quem ensina todos os seus truques. O nome dela é Bia.
Tá certo que a Bia ainda é pequena, bonitinha, então ainda não tem muita destreza para ficar invisível no semáforo. Ainda ganha uns bons trocados no horário de pico, e até recebe alguns convites pra entrar no carro. Mas não aceita nenhum. Sabe que no final do dia precisa levar o lucro pro Caio. Ele que agora não fica mais em casa à noite
Caio descobriu que depois de uma certa hora, o mesmo cara de terno que fecha o vidro do carro na sua cara, vai a pé pro semáforo. E o mais incrível, ele vê o Caio! Chegam até a conversar, enquanto o burguês acende o cachimbo e frita os miolos com o bagulho.
Uma hora dessas Bia fica em casa vendo a garrafa rolar pela barriga do pai, desmaiado no sofá. Mas ela nem espera muito tempo observando. Sabe que quando ele acordar, a cena não vai ser muito bonita. Não demora muito ela vai pra janela do quarto. Quando a lua está cheia e iluminando o morro, Bia consegue ver seu irmão lá na encosta com seus novos amigos.
O sonho dela é crescer pra poder acompanhar Caio.
Mas é só sonho.
As meninas não acompanham os meninos pra vender cachimbo à noite.
Quem sabe um dia ela não toma coragem e entra no carro? Os caras na rua parecem ter tanta vontade de levá-la pra um passeio. Um dia ela ainda vai entrar, isso é certeza. Mas por enquanto não, porque não tem coragem de passear e deixar o Caio trabalhando.

E a lua continuava bem cheia, nem parecia que era noite. Bia bocejou e percebeu já ser tarde. Tinha de ir dormir, porque amanhã era um novo dia. Caio ia ensinar a jogar malabares. Ela estava ficando crescidinha e já poderia aprender. Ele repassaria todos os truques.
Só que o principal deles nem precisaria ensinar. Com o passar dos dias ela acabará se fundindo ao semáforo e ao asfalto. Ninguém nem perceberá sua presença. Terá de frequentar as ruas à noite, mas não poderá vender cachimbo, porque ninguém compra cachimbo de menina.
Vai ter de vender outra coisa. Ela ainda não sabe o que. Talvez nem venha a saber.
O importante agora é dormir.
Sonhar com os malabares.
Sonhar com os carros.
Ou talvez sonhar com um futuro.
Apenas sonhar.

Alcy Filho

O mundo acorda cedo



Hoje senti o cheiro da manhã
Fui mais rápido que o sol
Cheguei na hora devida
E percebi não estar só.

O velho senhor pairava na esquina
Esperando pelo pão
Que sai cedo, acaba cedo.

Só então é que voltei otimista
O silêncio gritando ao redor
E as ruas me inclinando para frente.

De uma coisa eu sempre soube:
O mundo acorda cedo.
Decidi acordar também.

Alcy Filho

Imagem: John of Dublin

Os Contos de Biodak - Mundo Escuro





            Yanna abriu os olhos. Estava tudo embaçado e claro demais. Ouvia risos ao longe, crianças brincando, seu pai martelando alguma coisa lá fora. Tentou se sentar na cama, afastando o cobertor para o lado. Sentia a garganta queimando, e doía ao engolir. A visão continuava turva, mas já conseguia distinguir os móveis espalhados pelo quarto. Uma forte luz entrava pela janela, ofuscando ainda mais tudo ao redor.
            As risadas continuavam. Ela se arrastou para o lado da cama e pousou o pé no chão de madeira. Cambaleou até a porta e abriu, sentindo náuseas ao tentar enxergar com mais nitidez. Devia estar muito doente. Andou por um corredor em forma de arco, apoiando-se no tronco da gigantesca sequoia, na qual a casa havia sido construída. Na medida em que avançava, as risadas ficavam mais fortes e visão ia melhorando. Quando percebeu, já estava na cozinha da casa. Vazia. Panelas sujas na pia, restos de comida espalhados na mesa ao centro, água inundando todo o chão. Sentiu os pés queimarem ao tocar a água. Deu um salto para trás.
- Yanna, pegue logo seu prato! - uma voz inconfundível veio do fundo da cozinha. Era sua mãe.
- Mãe? Você está aí?
- Claro que estou! Vamos, pegue o prato antes que esfrie.
            A visão voltou a embaçar. Yanna sentiu fortes dores nas costas. Era como se estacas estivessem perfurando sua pele, só que de dentro pra fora. Suas pernas cederam, e foi ao chão, gemendo de dor.
- Eu... - tentou dizer. - Mãe... A dor...
- Sei, Yanna. A culpa é sua - disse a voz, soltando uma risada quase inaudível. - Eu falei que iria esfriar. Agora seu irmão terá de comer.
            Yanna olhou para o lado e viu um garoto se contorcendo no chão, a cabeça batendo repetidamente contra o piso. No mesmo instante o corpo do garoto se incendiou. As risadas se transformaram em gritos e as chamas se alastraram pela cozinha.
- A culpa é sua, toda sua! - a voz da mãe surgia de todos os lados. - Saia daqui, monstro!
            Quando o fogo alcançou as mãos de Yanna, tudo se apagou.


            Lentamente Yanna novamente abriu os olhos. Nada de visão turva, enxergava bem a floresta ao seu redor. Estava deitada sobre uma enorme rocha, coberta de grossas raízes. Ao lado corria um rio, indiferente a tudo que se passava. Pensou ter tido um horrível pesadelo, do qual não se lembrava mais. No entanto, o barulho das águas, o canto dos pássaros, as folhas caindo ao seu redor, era tudo tão familiar. Sentia-se em casa.
            Quis se levantar e ver as correntezas do rio. E foi assim que percebeu. Tentou mover suas mãos, mas no lugar delas encontrou patas com afiadas garras. Olhou para o próprio corpo e sentiu uma dor dilacerar sua garganta. A pele estava coberta de escamas avermelhadas. Seu nariz parecia pegar fogo, e a cada momento sua respiração ofegava mais e mais. Arrastou-se, arranhando as raízes com suas escamas, até chegar à beirada da rocha.
            O rio permanecia quase que inerte logo abaixo. E o reflexo na água foi o que mudou tudo. Uma criatura gigantesca encarava Yanna, com suas narinas bufando fumaça. Os olhos eram enormes e amarelados, e a boca entreaberta revelava longas e perigosas presas. Três chifres curvavam-se para trás, fixados no topo da cabeça. A floresta pareceu se calar enquanto Yanna descobria no que havia se transformado.
            Aos poucos as árvores começaram a se balançar, derrubando boa parte de suas folhas no chão. Logo todo o Oásis de Amdu dançava em reverência à Yanna, a nova Senhora dos Dragões de Amdu, sucessora de Ghiardo e última de sua espécie.
            Seus olhos, outrora cegos, agora enxergavam outro mundo, escuro, muito diferente do visto por aquela pequena menina de cabelos loiros. Ela ergueu a cabeça e bateu suas asas, levantando consigo as folhas a sua volta. Alçou voo para acima das copas das árvores, e continuou rasgando os céus, subindo até a floresta se tornar um pequeno ponto no meio do deserto. Observou toda a região ao redor, sem parar de bater as asas. Então algo explodiu em sua garganta, forçando-a soltar uma longa labareda de fogo, incendiando o céu de Amdu.
            O Oásis havia conseguido. Seu último desejo fora realizado. Yanna traria de volta o terror dos antigos dragões. O reinado dos Grandes Alados estava para recomeçar.

Alcy Filho


Imagem: venicequeenf

Os Protagonistas


Leia antes: "O Coadjuvante"

O elevador era pequeno, mais de quatro pessoas causaria certo desconforto. O rapaz se virou e encarou o espelho. Imagem turva, embaçada. Mas os cabelos continuavam ruivos. A porta se abriu num ruído que lembrava a freada de um caminhão. Assustado, fitou o homem loiro que chamara o elevador.
- Desce? - perguntou o loiro.
- É... acho que sim.
Para o ruivo, tudo era real. Ainda não desconfiara da realidade.


Sarah batia repetidamente a caneta na mesa. O quarto escuro era iluminado apenas pelo rádio relógio, que marcava em vermelho-vivo “01:00 pm”. Tomás dormia tranquilamente na cama ao lado, amarrado por cintas de couro, deitado sobre o lençol branco com peixes azuis.
O barulho da caneta contra a mesa substituía o tique-taque inexistente do relógio na parede, cujo ponteiro dos segundos deslizava sem produzir som. Algo precisava entretê-la enquanto Tomás avançava nos estágios do sono.
Correu os olhos pelo quarto, observando a mobília e os aparelhos médicos, todos assumindo a tonalidade de vermelho emitida pelo rádio relógio. Subiu o olhar para o teto e viu um pequeno ponto azul piscar incessantemente. Levantou-se e analisou a máscara de dormir de Tomás. Bem acima do nariz um LED azul-turqueza piscava, sinalizando que Tomás havia entrado no estágio de sono REM. Sarah esboçou um sorriso ansioso. Agora seria questão de minutos.
Foi até o canto do quarto e ligou a luz escura. O lugar assumiu uma cor roxo-azulada, dando certa visibilidade. Pegou um caderno de atas em cima da cômoda ao lado de Tomás. Sentou-se novamente, caderno aberto, caneta posicionada, ansiedade aumentando.
Tomás começou a mover as mãos, girando ambas lentamente no sentido horário. Os pés, presos ao colchão, se agitaram contra as cintas. Sarah teve de conter o impulso de desamarrá-lo. Algo não estava certo. Era para ser um sonho tranquilo, porém ele começou a se debater como se levasse um tremendo choque.
Sarah olhou aflita para a porta aberta, ninguém no corredor. O corpo de Tomás sacudia de tal maneira a fazer a cama dar pequenos pulos. Se continuasse assim, logo alguém seria alertado pelo barulho. Porém, subitamente, ele parou. Cessou por completo os movimentos, deixando a cabeça recair sobre o travesseiro, encarando Sarah através da máscara de dormir, que agora emitia uma constante luz amarela.
- Tomás? – sussurrou Sarah. – Você está acor...
Tomás lançou com força a cabeça para frente, aspirando brutalmente o ar pela boca, como quem tivesse passado um longo jejum de oxigênio. Tentou mexer os pés e pulsos sem muito sucesso. Estava ofegante.
- Calma, Tomás – disse Sarah, tentando aparentar serenidade e se preparando para escrever no caderno. Você precisa se acalmar ou vai se esquecer...
- Não foi do jeito que ele disse!  – gritou Tomás, ainda respirando com força.
- Fale baixo! – Sarah levantou num pulo, fechando a porta. – Quer que alguém nos escute?
- Tinha água... – Tomás se esforçava para falar. – Muita água... A cidade toda estava inundada! Eu demorei pra cair em mim... Não testei direito!
- É normal. Fazia tempo que você não induzia – Sarah começou a desamarrá-lo. – Talvez a falta de prática tenha feito você sonhar diferente.
- Não... – com as mãos livres, ele desamarrou as pernas e se sentou na cama. – Era pra ser o mesmo sonho. Começou igual. O elevador, o cara loiro... Mas quando chegamos na recepção do prédio, estava tudo inundado!
- Tomás, nós três passamos muito tempo separados. Acho que só o fato de sermos irmãos não seja o suficiente.
- Você me escutou? O início do sonho era totalmente igual! Não tinha como dar errado.
- Então por que deu errado? – ela guardou o caderno e voltou a se sentar.
- Eu não acho que tenha dado errado – sussurrou Tomás, olhando diretamente para a porta, agora fechada. Não havia garantias que o corredor continuava deserto. – Acho que ele mentiu pra gente.
- Você ficou louco, é? Pelo amor de Deus, Tomás! Ele estava morrendo, pra que iria mentir?
- Não sei! – ambos ficaram em silêncio. Nada saíra como o planejado. – Foi o mesmo sonho, juro! Só que acabei descobrindo tarde demais que não era real, e isso fez com que eu me afogasse...
Sarah coçou a cabeça e observou o irmão sobre a cama. E se ele estivesse certo? No fundo sabia que isso era possível. Levantou-se e pegou de novo o caderno.
- Aqui, tome – entregou o caderno à Tomás e começou a retirar seus sapatos. - Vamos descobrir se foi ou não mentira.
- Não, não! - exclamou Tomás, colocando o caderno de lado. - Eu induzo de novo! Não vou deixar você se afogar...
- Tomás, eu não vou me afogar. Saia logo da cama e pegue esse caderno. Você sabe que é quase impossível você induzir duas vezes seguidas o mesmo sonho do Jonas.
Inconformado, ele se arrastou para fora da cama. Pouco tempo depois Sarah estava já atada à cama, com a máscara de dormir envolvendo o rosto. Tomás se sentou e pegou a mão da irmã, apertando com força.
- Não precisa se preocupar comigo... – disse ela, tentando se relaxar. – Eu já disse que não vou me afogar. Isso porque, diferente de você, eu nunca deixei a indução. Pode ficar tranquilo. No início do sonho eu já estarei lúcida.
E o quarto mergulhou em um profundo silêncio. Tomás se preparou para uma longa espera, contudo levou um susto ao olhar para o teto. Uma luz azul piscava repetidamente.
Sarah havia entrado.


Elevador pequeno. Com mais de quatro pessoas já ficaria desconfortável. A moça não se virou para encarar sua imagem embaçada no espelho. Passou a mão pelos cabeços. Por algum motivo sabia que continuavam ruivos.
A porta se abriu repentinamente. Ela lançou um olhar assustado ao homem loiro que esperava pelo elevador. Ele parecia perdido, deslocado.
- Desce?
- É... acho que sim. - as palavras saíram mecanicamente.
O homem entrou e a porta se fechou atrás dele. Agora era só esperar. O livro estava lá embaixo, em algum lugar.
E o elevador descia levando Sarah. Rumo à cidade inundada.

Alcy Filho

Desfocado



Quando olho para o mundo, não vejo as mesmas coisas que você vê.
Até a quantidade não é sempre a mesma.
Vejo um mundo diferente, turvo, duplo.
Às vezes embaçado, às vezes desfocado.
Não enxergo como você enxerga.
Seria porque sou sonhador?
Ou mesmo porque penso ser poeta?

Não.

É porque sou estrábico e míope :)

Alcy Filho


Imagem: frazerweb

Céu negro - Parte 1



Olhei no relógio. 17:30 e ainda ouvia barulho dos alunos nos corredores. Apertei meu celular na palma da mão, como se fosse adiantar alguma coisa. “Pede pro papai vir me buscar”, foi o torpedo que enviei para meu irmão. Ele estava doente, então sem chances de eu conseguir proteção na saída. Corri os olhos através da janela e lá estavam eles, escorados na grade perto da portaria. Diogo também estava no sétimo ano, mas tinha estatura de aluno do Ensino Médio. Seus dois amigos não eram maiores que eu, mas em força com certeza o eram.
Eu, sozinho na sala de aula, cruzei os braços para me proteger do frio. Fechei os olhos e tentei me imaginar em casa, deitado na cama debaixo do cobertor, protegido dos moleques da escola. Não funcionou. Abri os olhos e ainda estava na sala, de cara para o quadro negro. Só que agora uma figura baixinha e carrancuda estava ao meu lado, encarando-me por trás dos óculos fundo de garrafa. Era Sônia, a coordenadora, o terror dos alunos do Ensino Fundamental.
- O que cê tá fazendo aqui ainda? Todo mundo sabe: professor sai, aluno sai. Regra simples. Pega seu material e vai esperar lá na portaria. Bora, menino!
Catei meus lápis em cima da mesa e joguei dentro da mochila. Pendurei uma alça no ombro e saí da sala. Não falei sobre o Diogo e a surra que eu provavelmente levaria. Isso só agravaria as coisas. Quem sabe, por um milagre, meu pai já não estaria no corredor, andando de um lado para outro, esperando para ir embora. Não estava.
Minha sala ficava no fim do corredor do bloco de aulas. Comecei a andar sem pressa, passando lentamente pelas portas abertas, observando as moças da limpeza apagarem as artes feitas pelos estudantes nas carteiras. Eu devia ser o único aluno que ainda estava no Instituto. Era sexta-feira, não haveria educação física e até a academia já tinha fechado. Só restavam alguns adultos, que pouco se importariam comigo, sem contar com Diogo e seus amigos.
Fui subindo as escadas que me levariam à portaria. Fazia um frio sobrenatural, e a grande quantidade de árvores espalhadas pela escola colaboravam para o clima. As escadas ficavam ao ar livre, recebendo apenas uma proteção superior contra a chuva. Encolhi os ombros e continuei subindo, enfrentando a vento que uivava feito lobo.
Quando cheguei no nível da portaria, encarei o portão dos alunos aberto e Diogo de costas, rindo, provavelmente contando uma piada racista. Instintivamente dei meia volta e comecei a andar. Não queria apanhar. Minhas costelas latejavam só de pensar no punho do Diogo se enterrando no meu estômago, quebrando qualquer osso pelo caminho. Apertei o passo e resolvi olhar para trás. Eles também olharam. Diogo fechou a cara e deu um tapa nas costas de cada um dos amigos. Vieram atrás de mim.
Corri em direção à biblioteca, na esperança de me esconder até o Instituto fechar. Quem sabe eu não passava a noite por ali? Gelei quando avistei a porta fechada e as luzes apagadas. Rumei pelo pátio, depois subi as escadas para o bloco 400, onde ficavam os laboratórios. Ouvi risadas atrás de mim. Tinha de me esconder. Tropecei no último degrau e deixei a mochila cair.
Passei por dentro do bloco e abri o portão que dava acesso ao gramado nos fundos do Instituto. Diogo gritou atrás de mim.
- Ô, bichinha! Cê deixou sua bolsa cair.
Desengonçado, escalei um pequeno barranco e me apoiei num velho jatobá. Parecia que todo oxigênio do mundo havia acabado. Coloquei a mão no peito, ofegando desesperadamente. Diogo passou pelo portão, sem muita pressa, com um sorriso malicioso no rosto. Segurava minha mochila em uma das mãos, balançando de um lado pro outro.
- Escutou não? - falou. - Sua bolsa caiu no chão.
Jogou com força a mochila em mim. Protegi com um dos braços e agarrei antes que atingisse meu rosto. Os amigos dele ficaram encostados no portão, fazendo o papel de vigias. Diogo foi se aproximando, até ficar a um metro de distância.
- E aí, bichinha? Tava macho hoje, falando alto e tudo mais... Aconteceu alguma coisa?
Não consegui responder. O medo, e talvez o frio, me congelaram. Só o que consegui foi erguer o corpo e tentar segurar o choro que estava por vir.
- Num vai chorar, né? - disse Diogo, agora se aproximando mais ainda.
Ele me lembrava muito o namorado da minha mãe. Pele branca, cabelo liso e castanho-escuro, penteado de qualquer jeito. A camiseta era bem apertada para mostrar os músculos que fariam um estrago no meu rosto.
- Agora cê vai aprender a calar essa boca. E também vai aprender que viadinho não fica se mostrando pra ninguém.
Diogo levantou o punho no ar. Fechei os olhos e esperei o soco. O que senti foi algo segurando meu pescoço. Será que ele iria me sufocar? Agarraram meus braços e pernas. Abri os olhos, a visão meio turva, e pude enxergar o vulto dos meninos à minha frente, andando de costas, aparentemente apavorados com alguma coisa.
Tentei ver o que me segurava, mas quando dei por mim, estava sendo puxado para baixo. Senti terra entrando pela bermuda, espinhos arranhando minha perna. Novamente fechei os olhos, e fui me deixando ser tragado. Não conseguia respirar. A pressão era imensa, e pensei que seria esmagado a qualquer momento. Foi quando o solo abaixo de mim cedeu. Com um baque surdo, caí em uma superfície lisa e gelada.
Fiquei acordado por alguns segundos antes de apagar. Acima de mim, as estrelas brilhavam fracas, pairando em um céu negro.
Ouvi chamarem meu nome. Tolos. Nunca me achariam ali.
Continua...

Alcy Filho



Orquestra de pés





Os olhos tentam abrir
Inchados, doloridos.
Pés chutam
Esmagam
Pisam.
Uma sinfonia irregular
Que quebra ossos
Quebra óculos.
Sinto sangue nas mãos
Nos pés
Na boca.
Ouço gargalhadas, gritaria
Toca o sino da escola
E finalmente cessa.
A orquestra de pés se afasta
Risos, palmas
Todos de pé
O espetáculo acabou
Próxima sessão:
Amanhã e depois, e depois.
Alguns apelidam:
Billy, Bolly
Bully, Bullying.

Eu chamo pelo nome:
Crueldade.

Alcy Filho

Jogo de palavras




Penso em fazer poesia
Apenas penso e desisto
Pois clichês e pieguices
E sentimentos sem sentido
Enchem meus versos
E destroçam minhas idéias.

Penso em fazer poesia
Apenas penso
Pois o que crio é um jogo de palavras
Tosco e redundante
Que de poesia, só tem as rimas.

Alcy Filho


Imagem: Kuriru


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Depois deste poema parei de tentar me forçar a escrever. Deixemos a inspiração fluir normalmente. Quero escrever mais do que um simples jogo de palavras ;)  #revoltajapassou

No elevador




      Quem conhece o RPG, sabe que uma partida pode gerar situações e histórias muito interessantes. Alguns anos atrás, quando iniciei minha faculdade, fiquei sem tempo de reunir os amigos para jogar. Até porque grande parte do meu antigo grupo se separou, indo cada um para um curso. Demorou pra conseguirmos nos reunir novamente.
      Enquanto isso, minha vontade de jogar continuava. Nas minhas andanças pelo Google encontrei o portal RPG Online. Através de um programa de bate-papo adaptado, era possível rolar partidas de RPG sem sair de casa. Não seria a mesma coisa, mas quebrava o galho. Procurando salas de jogo, encontrei uma Mestre, a Isis Bianca, interessada em narrar uma história curta, uma espécie de conto, em que cada participante descreveria as ações de seus personagens. Outro jogador e eu fomos escolhidos para a primeira sessão. No bate-papo tínhamos os apelidos de Makal e Kenrious, respectivamente. Escolhemos então os nomes dos nossos personagens (ele descreveria falas e ações do Marcos, e eu as do Nenzi, que agora mudou para Daniel). Todas as descrições do ambiente, e como ele reagia às nossas ações foram descritas pela Isis. Nossa sintonia em criar a história foi enorme, e culminou no conto "No elevador", publicado no portal RPG Online.
      O conto abaixo é o mesmo, contando com poucas alterações (como o nome do meu personagem). Espero que gostem ;)


      Um elevador, um prédio de escritórios. Trabalho, problemas, cansaço, tarefas sem fim que parecem tornar qualquer sinal de humanidade tão distante quanto um sonho. E então, um solavanco, e dentro da caixa de metal dois estranhos estão presos. Estranhos? Nem tanto. Já se viram ao certo, mas, na correria, são apenas dois autômatos, dois rostos na multidão. Mas agora não há multidão. As tarefas e a loucura do cotidiano parecem ter parado junto com as engrenagens do maquinário. Talvez constrangimento, talvez nervosismo, mas estão sós, os dois, presos num elevador.
      Marcos leva as mãos à cabeça, em um ato de cansaço e desespero. "Não, agora não. Por que isso?". Virou-se, apertando mais algumas vezes o botão que levava ao térreo, sem sucesso. Suspirou e se encostou com desânimo na parede do elevador. Daniel tenta não olhar para o lado. "Logo hoje..." pensa. "Preciso sair daqui". E procura um botão de ajuda no elevador. O botão cede em vão. O elevador não se move. Apenas um som surdo ecoando pelo fosso escuro abaixo e acima. O ar ali é parado, a luz, estéril e fria. No espelho do fundo, como se outros dois estivessem em posição semelhante, em um outro universo improvável.
      Marcos diz: - Espero que não tenha muitos compromissos hoje. Algo me diz que isso vai demorar... Ele se senta no chão do elevador, suspirando, desanimado.
      Daniel olha para o teto procurando algo. Como se quisesse achar uma saída. De soslaio, observa o estranho. "Realmente não posso ficar aqui...", pensa. Respira fundo e encara o sujeito: - Tem um cigarro? - pergunta.
      Marcos sorri. - Não fumo camarada... E acho que aqui não seria uma boa ideia. Iriamos morrer sufocados - olha em volta, vendo que a ventilação ali é mínima - Já vi você algumas vezes por aqui... Trabalha em que setor?
      Daniel volta a olhar para o teto. - Não trabalho aqui... Tem certeza que não tem um cigarro?
- Só se alguém colocou algum na minha calça... - puxa os bolsos da calça para fora, deixando-os do avesso - Realmente, nada... - suspira.
- Ah...Um bom cigarro nessas horas alivia. É uma pena não fabricarem elevadores para fumantes... "Se eu gritasse, alguém ouviria? Acho que não...", pensa Daniel. Ele se senta e observa o outro, sem desviar o olhar.
- Humm... Acho que venderia, ao menos - diz Marcos. - Não sei qual a graça em fumar. É fedido, faz mal, e te faz gastar grana. Qual a vantagem?
- Não sei... Não fumo. Mas nessas horas, penso em começar.
Marcos ri: - Essa foi ótima... Mas, se não trabalha aqui, o que veio fazer?
- Preciso falar com alguém...
- À trabalho?
      "Ele acertou...", pensa Daniel.
      No intervalo entre as palavras, o zumbido da luz. Um som antes mal percebido, pode ser quase insuportável agora, se você não puder com o silêncio. Talvez por isso a busca pelas palavras, mesmo que sobre o nada, sobre algo que pode não fazer a diferença. No relógio, mais um minuto passa. Mais um minuto de suas vidas, se esvaindo a cada segundo.
      Daniel diz: - Qual o motivo disso? Dois estranhos em um elevador. A quê isso leva?
- Não sei... - diz Marcos. - Li um livro uma vez em que dois estranhos ficavam presos no elevador. Eles aprendiam lições que mudariam radicalmente a vida dos dois. Bem, não acho que seja igual aqui, mas é interessante a ideia.
- Não penso que você tenha algo a me ensinar.
      Marcos sorri. - Todos temos cara! Todas as pessoas tem algo para ensinar, e que te faria ficar pensando durante horas... Ou anos...
      Daniel se levanta e começa a bater o pé com força no chão. - Isso te ensina algo?
- Sim... Que posso confiar nos fabricantes de elevadores. - Cruza os braços, suspirando outra vez.
      O som retumba no vazio do fosso e o elevador balança, sustentado pelos cabos de aço. Daniel para e olha novamente para o estranho, agora com um sorriso no rosto: - Se morresse, alguém sentiria falta de você?
      E mais um minuto se passa, sem que haja sinal de qualquer mudança, a não ser as que eles puderam causar. Os últimos ecos dos chutes de Daniel ainda se ouvem, fracos. Marcos diz: - Talvez... Mas acho que eu é que mais sentiria falta de mim mesmo. Talvez algum amigo, se é que tenho algum de verdade. Não sei...
- Amigos... Só servem pra nos trair e revelar que amizade não existe. - diz Daniel.
- Humm... Alguma lembrança amarga? - pergunta Marcos, fitando-o com atenção.
      Daniel encosta na parede. - Lembranças? Prefiro não guardar. No espelho, o outro Daniel encosta também. - Afinal, todos morrem, não é mesmo? Pra que guardar lembranças de futuros mortos?
      No relógio, os segundos piscam implacáveis.
- Exato, todos morrem. - diz Marcos. - Mas enquanto vivemos, temos nossas lembranças. Elas nos mantem vivos. Como acha que seria se acordasse todo o dia sem lembrança alguma? Imagine levantar de manhã e não saber nada de nada. Nem seu próprio nome, ou de onde veio...
      "Isso não vai me levar a nada... Será que chego a tempo?". Daniel se arrasta na parede até se sentar no chão.
- Na verdade, eu me lembro de algo. Lembro dele ainda vivo... Seu sorriso era o único que conseguia me contagiar. - abaixa a cabeça.
- Um parente? - pergunta Marcos, atento.
- Parente? Não... Acho que nenhum parente teria me feito tão feliz - Daniel levanta a cabeça. - Sabe, amizades estão fadadas a terminar. Não quero mais iniciar algo com fim pré-determinado.
- Então porque vive, se a vida tem um fim pré-determinado?
      "Acho melhor desistir! Não vão me deixar entrar...", pensa Daniel. - Está dizendo para eu cometer suicídio?
      À luz fria, os dois homens sentados, no chão de uma caixa de metal pendurada no meio de uma construção de aço e concreto. No entanto, estão vivos, e é como se uma fina abertura se abrisse na casca que repousa sobre a realidade, sob a qual todos buscam manter a vida muito bem escondida e... congelada.
- Só estou dizendo que você está encarando as coisas de modo errado. Não temos que pensar que algo está fadado a terminar. E sim fazer valer enquanto durar. - diz Marcos, e suspira.
- É o que estou tentando - Daniel passa o dedo no chão. Como se desenhasse algo.
      Marcos se mantem silencioso por um tempo. Então pergunta: - Qual era o nome dele?
- Carlos... Meu melhor... - "Amigo", pensa. Daniel abaixa novamente a cabeça. Algo começa a pingar no chão.
      Marcos olha para o teto, como se pudesse ver através dele e admirar o céu e as estrelas. - Valeu a pena? A amizade? - pergunta.
- Naquele tempo sim. Mas agora é inválida - Daniel se levanta de repente. Enxuga os olhos. - Odeio essas ceninhas sentimentais.
      Por fim, um solavanco, e o elevador recomeça a jornada rumo ao seu destino. E qual seria ele? O trabalho, o tédio, o apressado corre-corre, eclipsando a luz das estrelas, e até mesmo a do sol, por trás de coisas inúteis que todos perseguem como moscas? Rumo a amores perdidos, impossíveis, malfadados e improváveis? Ou rumo a um outro elevador, apenas maior, e mais abarrotado?
      Daniel se endireita e olha para a porta do elevador. Marcos pergunta: - Mudaria algo? Faria diferente se pudesse voltar atrás? Teria escolhido não tê-lo conhecido? - Agora fitava Daniel, sério, mas atencioso, compreensivo.
- Nunca escolheria algo assim...
      O elevador caminha e os números mudam no mostrador. E mais um minuto. Daniel suspira e olha para o teto. Marcos levanta-se, sorrindo, de um modo satisfeito e amigável. Aproxima-se, ficando de frente para a porta e ao lado de Daniel. Coloca a mão em seu ombro. - Então valeu a pena. São essas lembranças que te fazem humano.
      Daniel olha para o homem e dá um profundo sorriso. Seus olhos em paz.
      E a porta se abre. Olhares impacientes de outros usuários que esperavam sua vez e um técnico que, ainda abaixado ao lado do painel de controle do elevador, ri nervosamente, mas satisfeito, pois seu trabalho estava concluído.
- Bem vindos de volta...

Isis Bianca, Makal e Kenrious (Alcy Filho)

Só em Ti, Senhor




Composição: Alcy Filho e Bruno Moraes
Produção: Fábio Dias
Álbum: No coração de um amigo (Bruno Moraes)

Quando forças não posso encontrar
O coração já não posso escutar
Se os momentos de dor já não posso aguentar
Tua mão me levanta
Fortalece minha fé
Cura minhas feridas
Me faz continuar

Só em Ti, Senhor
Eu posso encontrar
Esperança na dor
Forças pra caminhar...

Não me deixe esquecer
Que grandioso Tu És
Eis-me aqui, Senhor
Quero carregar a minha cruz...

Obrigado, Senhor
Obrigado, Jesus
Obrigado por Tua liberdade
Obrigado, Senhor

Obrigado, Senhor
Obrigado, Jesus
Obrigado por Teus livramentos
Obrigado, Senhor

Tenho de andar




Sempre me atraso
Tenho de andar
Não possuo asas
E nem saberia usar.

Há quem alcance
Aqueles altos edifícios
E pule de telhado em telhado
Coisa que não consigo.

Por isso caminho pelas ruas
Velhas e poeirentas
Subo por elevadores
E escadas quebradas
Todos de um tempo distante
Quando ninguém sabia voar.

Sempre me atraso
Não sei voar
Por isso tenho de andar
Sempre.

Alcy Filho


Imagem: bittertaste

O que é Biodak?



Biodak surgiu da minha paixão pelo RPG. Foi ele o responsável por abrir minha mente, fazendo universos e histórias brotarem na minha imaginação. De todos os mundos, o mais desenvolvido foi Biodak, que na verdade é um continente. Nele vivem criaturas fantásticas, tais como elfos, humanos e anões. A minha influência é clara: Tolkien. Mas que escritor de fantasia medieval não é influenciado por ele? Pra falar a verdade, sinto-me honrado quando alguém diz que meus textos lembram os dele. Sempre tento colocar minha personalidade, e um pouco de originalidade na história, mas sei que Tolkien acaba visitando todas elas.

Para contar os inúmeros eventos de Biodak, resolvi começar a série “Os Contos de Biodak”. Assim, vou apresentando aos poucos os acontecimentos e ambientando os leitores nesse continente que não para de crescer.
Então, se você quer conferir desde os primeiros contos que escrevi (alguns só podem ser entendidos se lidos na ordem correta), segue a lista completa:

O último toque de Amdu
A Torre de Thur
Três desejos do oásis
Destroços e Retalhos - Parte 1
Cinco criaturas do norte
Mundo Escuro

Os Contos de Biodak - Cinco criaturas do norte




          Durante séculos o povo de Hur viveu recluso em seu próprio reino. As terras eram demarcadas ao sul pelas Montanhas Altares, ao oeste pelas Colinas Lunares, ao leste pelas Montanhas Caldir e, por fim, delimitadas ao norte pelo Paredão de Akina.
          Somando com a história dos pequenos de Nerdick, e com os humanos em Wadoj, a história dos elfos de Hur é a terceira a tratar de êxodo. Ela conta como eles abandonaram o reino, seguiram a estrada Perk e se tornaram o Povo do Lago. Nesta primeira parte são mostradas as criaturas que causaram a fuga pelas Montanhas Caldir.


          O rei alisava seu manto de seda tentando se lembrar da última vez que o tinha usado. As assembleias eram raras, assim como as decisões provindas das mesmas. Os representantes de cada distrito se reuniam para, durante dias, tratarem dos problemas do reino.
          O assunto em pauta parecia novo e mais polêmico que os anteriores. Nada que por si só chamasse a atenção do rei, que começara a admirar um pássaro construindo um ninho em uma das janelas do salão.
- Vossa Majestade quer dar sua opinião?
          A voz do conselheiro Aldo trouxe o rei de volta a realidade. Dezenas de olhos ansiosos encaravam o herdeiro da coroa, sentado na ponta da mesa bronze.
- Bem, poderiam me colocar a par dos fatos? – perguntou o rei, visivelmente perdido no assunto.
          Os representantes trocaram olhares apreensivos enquanto Aldo fazia um resumo do que havia sido discutido.
- Erani, o representante do distrito de Altar, propôs a exploração da estrada Perk além das Montanhas Caldir.
          Um burburinho tomou conta do salão. Erani começou a discutir com alguns representantes que discordavam de sua proposta. O rei entendeu o porquê de tanta polêmica.
- Vejo que o problema que enfrentamos nesta assembleia – começou ele, fazendo o salão se silenciar. – envolve mais que interesses individuais. O que o nosso companheiro de Altar propõe é explorar a estrada Perk, correndo o risco de terminar como nossos antepassados que ousaram transpor aquelas montanhas...
- Vossa Alteza me perdoe, mas tenho que frisar... – de repente Erani parou e percebeu o insulto que cometia ao interromper o líder. Porém o rei não pareceu se importar e acenou para que o representante continuasse. – Recordo-me bem das histórias sobre nossos antepassados que nunca voltaram ao passar pelas Colinas Lunares, ou ao tentar transpor as Montanhas Caldir. Mas os tempos são outros e os perigos que um dia dominaram tais regiões, hoje podem estar extintos.
          Os representantes voltaram à discussão, alguns inconformados, outros a favor de Erani. O falatório foi interrompido por um jovem mensageiro que entrou apressado pelo portal principal. Estava sujo e cansado de uma longa viagem. Passou correndo pelo tapete vermelho que atravessava o grande salão real. A luz do dia começava a abandonar o salão e as sombras das poltronas se alongavam pelo chão de pedra polida.
- Mensagem do Paredão! – gritava o mensageiro, ao chegar perto do rei. – Tenho uma mensagem do Paredão de Akina!
- Tragam água e providenciem hospedagem ao nosso jovem aqui – disse o rei a um grupo de camareiras que assistia a assembleia. – E você, mensageiro, transmita a mensagem.
          O jovem tomou fôlego e falou pausadamente.
- Os observadores da segunda torre de Akina avistaram uma criatura. Uma grande criatura. Disseram que ela voava sobre as árvores do paredão e, por vezes, descansava nas rochas e observava a torre.
          O mensageiro parou e tomou a água que a camareira havia buscado.
– E também afirmaram que um incêndio se formou no paredão, exatamente no local onde a criatura sobrevoava.
- Quando tais fatos ocorreram? – perguntou o rei.
- Há duas semanas.
- Duas semanas? – bradou o rei, espantado. – São três dias a cavalo da segunda torre até aqui! Por que demorou duas semanas para transmitir a mensagem?
          Trêmulo, o jovem tomou outro gole d’água.
- O problema é que essa criatura foi embora logo após o incêndio e não se mostrou durante uma semana. Porém, após este prazo, ela voltou a ser avistada e acompanhada de mais quatro dela. No dia seguinte fui enviado a cada distrito, levando a mensagem da criatura e alertando para a evacuação.
          Um novo pesar caiu sobre os olhos do rei. Percebeu que algo maior residia na mensagem do jovem.
- Evacuação? – perguntou ele, com a voz embargada. – Tem certeza que a ordem que lhe deram em Akina foi de evacuação?
- Sim, Alteza. – o jovem parou de novo. Fazia um tremendo esforço para transmitir aquelas palavras. – Quando a mensagem me foi passada, o distrito de Akina reunia exércitos para enfrentar as cinco criaturas, que voavam para a cidade queimando tudo a sua volta.



          Os pastos ao longe ardiam em chamas. O comandante Daroy tomou a frente do campo de batalha. Ele sempre imaginou que um dia algo parecido iria acontecer. Havia um motivo de seus antepassados terem construído torres de vigilância na região do Paredão de Akina. Aquelas criaturas deviam ser a ameaça que rondou Hur centenas de anos atrás.
          Daroy colocou o binóculo e avistou o pasto adiante. Nenhum sinal das criaturas. Com certeza iriam atacar de surpresa. Era hora de preparar os soldados. Muitos tinham atendido ao chamado de alerta, vindo de distritos vizinhos. Daroy achava que poderia conter as criaturas, enquanto o resto do reino evacuava.
          O comandante montou seu cavalo e começou a andar em frente o pelotão.
- Guerreiros élficos de Hur, hoje é nossa responsabilidade proteger nosso reino. É nossa responsabilidade conter as criaturas enquanto nossas mulheres e crianças procuram um lugar protegido nas montanhas – Daroy parou e lançou o olhar ao norte. Algo parecia se mover nas chamas. Tinha de terminar o pronunciamento. – Hoje lutaremos não só pelo rei, mas por tudo que é nosso por direito. Não deixaremos que as criaturas do norte nos atinjam, pois estamos preparados. Estamos preparados para conter o que for. Em nome de Hur!
          Os gritos dos soldados ecoaram pelo pasto. Gritavam “Hur!”, com toda a força de seus pulmões. O comandante fez um sinal e os gritos cessaram.
- Hoje não somos maridos, não somos empregados, não somos apenas elfos. Somos os elfos de Hur e mostraremos não só força, mas sabedoria!
          Mais uma vez os soldados comemoraram e gritaram o nome de Hur. Tambores tocaram invadindo o campo de batalha com o hino do reino. Estavam preparados, para o que fosse.
          Uma trombeta soou e os tambores e a gritaria cessaram. Os soldados ficaram a postos, com visão focada nas asas que sopravam o fogo logo à frente.
- Arqueiros, preparar! – gritou Daroy. – Apontar.
          Finalmente a criatura saiu das chamas e voou alto pelos céus, em direção ao pelotão. Era gigantesca, as asas pareciam de morcego, tinha chifres de marfim na cabeça e por toda coluna vertebral. Batia com força intimidadora as asas, preparando as garras dos pés para atacar os soldados.
          O comandante engoliu em seco ao ver a criatura, era muito pior do que jamais teria imaginado. Colocou todas as suas esperanças nas flechas dos arqueiros. Esperou a criaturas descer dos céus. Foi quando ela deu um rasante sobre o pelotão que ele gritou.
- Fogo!
          Centenas de flechas invadiram o céu, atingindo a criatura. Mas nenhuma surtiu efeito e o monstro voou sobre os soldados, derrubando-os com suas garras. Novamente voltou aos céus.
          Daroy observou o grupo de soldados caídos e pegou seu arco.
- Preparar! – sua ordem foi repetida pelos oficiais espalhados pelo campo. – Apontar!
          Novamente o monstro desceu dos céus, mirando um grupo de arqueiros no meio dos soldados. O comandante gritou “Fogo!”, e mais uma vez as flechas ricochetearam nas escamas na gigantesca criatura. Ela sobrevoou os soldados e, de suas narinas, surgiram labaredas de fogo.
          Os arqueiros correram pelo campo de batalha, ardendo em chamas. Daroy preparava-se para o ataque, quando a trombeta voltou a soar. Virou o cavalo para o norte e viu outras três criaturas voarem pelo campo.
          Daroy acenou para os oficiais que comandavam os canhões. Esperou. Os monstros avançavam de maneira determinada. Esperou. De súbito as criaturas pararam e aterrizaram logo à frente. Centenas de olhos élficos as observavam, sem terem a mínima ideia do que viria depois. Elas abaixaram o corpo e praticamente se deitaram nos campos.
          O comandante abaixou seu arco e olhou através do binóculo. Os monstros estavam com a respiração ofegante, igual a crianças com asma. Pensou que talvez haviam desistido. Tolo pensamento. Uma repentina fumaça saiu das narinas de cada criatura e inundou o campo. Era impossível enxergar. Os tiros de canhão surgiram sem autorização do comandante.
          Daroy chicoteou de leve seu cavalo e saiu em disparada pela fumaça. Ultrapassou corpos em chamas e soldados que corriam para todos os lados, hipnotizados pelo medo. Até que conseguiu sair da fumaça. Olhou para os céus e avistou as criaturas voando alto, mirando sem errar e mergulhando o exército em chamas.
          Em um movimento inútil, empunho seu arco. Seus pensamentos eram outros. Não conseguia se importar com os soldados, nem com o reino, nem com aquela batalha. Só pensava na mulher e nas crianças. Talvez o ato de mirar no casco impenetrável das criaturas significasse algo em sua mente. Absorto em seus pensamentos, não ouviu o leve pouso do monstro atrás de si. Sentiu um calor infernal, como se o mundo inteiro fosse uma enorme bola de fogo.
          Daroy abaixou o arco e virou o cavalo em direção à criatura. Ficou frente a frente com o monstro que destruiria grande parte de Hur. O grande lagarto bufava e tinha o olhar distante. Olhos brancos, cegos. Daroy abaixou a cabeça, quando a gigantesca pata o atingiu.
          E o fogo cessou.

Alcy Filho


Imagem: treijim

Lábia

Lábia
        
         Naquele dia percebemos que haviam colocado um relógio na parede. Era o clássico gerador de tic-tac’s, que treme o ponteiro ao passar pelos segundos. A aula: Sistemas Operacionais. Iríamos repor um horário que não tivemos, então veríamos slides atrás de slides nas próximas 3 horas.
         Olhei pro lado e vi que todos dormiam. Alguns não fechavam os olhos, mas era visível que não prestavam atenção em nada. Eu mesmo me peguei encarando um pequeno besouro que subia pela moldura do quadro. Quando chegou ao topo, começou a voar pela sala, até pousar no cabelo do professor, que mal percebia o que acontecia ao seu redor, e continuava dando aula. Foi então que o besouro decolou novamente e veio direto para a minha carteira, pousando na capa do caderno de Sistemas.
         Ele tentava se equilibrar nas aspirais, aos poucos se virando para mim. Quando conseguiu, ficou alguns momentos me “encarando”. Os tic-tac’s do relógio pareciam marteladas. Então, sem pensar muito (na verdade, sem pensar), falei:
- Entediado?
         O professor olhou pra mim, mas voltou a explicar a matéria.
- Muito...
         “Hã?”. Alguém havia me respondido. Olhei para os lados, mas todos pareciam mergulhados em suas próprias ilusões.
- Pena que não tem videogames aqui.
         Ok, era o besouro falando comigo. Eu me aproximei dele e cochichei:
- Você joga videogame?
         Era aula de Sistemas Operacionais, todos estavam delirando. Conversar com o besouro era lucro.
- Só jogo os clássicos – respondeu ele.
- Então não conhece os novos consoles?
- Sou mais os emuladores.
         Olhei para o relógio, que parecia demorar 1 minuto pra cada segundo. Uma eternidade ainda pra acabar a aula.
- Você está me escutando? – perguntou o inseto.
- Sim, mas não consigo levar isso a sério.
- Talvez se eu me aproximasse mais, poderíamos conversar melhor.
         “Aproximar?”, pensei desconfiado. Nunca gostei muito de besouros. Pra que iria deixar que se aproximasse?
- Se eu ficar na sua orelha, podemos conversar sem perigo de alguém ver que você está conversando com um besouro.
         É, talvez não fosse uma má idéia.
- Pode subir – falei.
         O besouro levantou vôo e pousou na minha orelha e começou a passear por ela, pregando e despregando suas pequenas garras, até ficar perto do entrada do ouvido.
- Sabe, você tem um belo ouvido... E, pelo que eu vejo daqui, um labirinto tentador. Sempre gostei de resolver labirintos. Acho que consigo este.
         Ele começou a andar para dentro do ouvido e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já tinha entrado. As marteladas dos tic-tac’s se uniram ao zumbido do besouro no ouvido, tentando resolver meu labirinto.
         E foi assim que entendi como eles entram nos ouvidos das pessoas. É a lábia dos besouros.

Alcy Filho

Os Contos de Biodak - Destroços e Retalhos - Parte 1






Após a fuga dos pequenos das Colinas Frias, o lugar encontrado por eles, e transformado em seu novo lar, foi a Floresta Dart-Mor. Por algum motivo os seres da Torre não ousavam enfrentar as gigantescas árvores que rondavam as Colinas. Por cerca de duzentos anos os pequenos fizeram das árvores sua nova casa, para depois migrarem à Planície Roxa e, finalmente, estabelecerem-se em Feenos, protegidos pelo Paredão de Akina.

Mas antes de os pequeninos abandonarem o território seguro de Dart-Mor, um velho contador de histórias resolveu voltar às Colinas Frias. Lugar habitado pelas mais frias e cruéis criaturas, libertadas da velha e misteriosa Torre.


Agda batia a colher de bronze contra o prato de madeira. Encostou o cotovelo sobre a mesa e repousou a cabeça sobre a mão esquerda. Começou a remexer seus legumes.

- Pare de brincar com a comida, Agda! – vociferou Tami, tentando mastigar a hortaliça que o marido havia trazido.
- Mas, mãe... – resmungou a garota, sem ânimo. – Isso tem gosto de terra!
- Bem, se você não tivesse experimentado terra, talvez gostasse um pouco mais das verduras que seu pai traz.
- Não a force, Tami... – disse Yann que não havia dito uma palavra desde que chegara da colheita. – Nem eu consigo engolir esse capim.

Ele largou o talher no prato e saiu da mesa. Passou pela porta da sala e ficou na sacada, observando as outras casas. Eram todas feitas de bambu, sustentadas pelas várias sequóias da floresta Dart-Mor. Era noite e a maioria das luzes estava ligada. Porém uma casa em especial permanecia sob total escuridão. Yann encostou os braços no parapeito e respirou o ar puro da floresta.

Tami saiu da sala e ficou observando as casas ao lado do marido. Sabia bem o que o incomodava.
- Ele insiste em voltar? – falou após um longo silêncio.

Yann abaixou a cabeça e deixou os cabelos balançarem à brisa que batia na copa da árvore.

- Ainda não acredito que ele veio de lá... – disse, observando o aparente abismo que se estendia abaixo. – Agora quer voltar. Diz que tem de buscar a mãe e que é tudo culpa dele.
- Ninguém sabe o que acordou a Torre! – falou Tami. – Mesmo que ele diga que foram três garotos, como alguém poderia saber? E se ele tem uma mãe lá, já deve estar morta. Não tem como ter sobrevivido todo esse tempo. Me dá arrepios só de pensar no que aquilo se tornou.
- Ele parece nem sentir – disse Yann, curvando a cabeça em direção à uma casa logo a frente. Da porta da frente saía um velho, de mochila nas costas e portando um cajado. Ele começou a descer a longa escadaria, mas parou por um momento. Virou-se para trás e encarou Yann.
- Não faça nada – sussurrou Tami. – Já tentamos tudo o que pudemos. Se ele quer se sacrificar, deixe-o ir.
- Ele não vai conseguir sair de lá. Não agora.

O velho tornou a se virar e continuou a descer os degraus. Tami e Yann o observaram sumir na escuridão lá embaixo. Ela fixou o olhar nas copas das árvores, logo acima.

- Resta esperar que as Colinas Frias não o deixem entrar.


Naquele ponto da floresta era possível sentir a presença da Torre. Ela estava a quilômetros de distância, mas emanava um mal tão grande como nunca poderia se imaginar. Faltava pouco para o velho pequenino alcançar a orla da Floresta Dart-Mor. Por anos aquelas árvores serviram de abrigo contra as trevas que assolaram as Colinas Frias. O velho já sentia calafrios só de lembrar o terror que voltaria a enfrentar. Ele enxugou o suor de sua face queimada e continuou a viagem.

Enquanto caminhava pela estrada proibida, as árvores mudavam de aparência. De um marrom vivo passavam a um cinza disforme. Não havia mais brisa, não havia mais o costumeiro canto dos pássaros. O velho tinha chegado à fronteira entre Dart-Mor e as Colinas Frias.

Há tempos ele não via um céu tão escuro. Pelo visto os raios de sol nunca mais alcançaram os descampados das colinas. Um cheiro pútrido invadiu as narinas do pequeno, lembrando-o dos terríveis acontecimentos que nunca saíram de seus sonhos. Sentiu vontade de vomitar, queria desistir daquela viagem suicida, mas não poderia viver por mais tempo com aquela culpa.

Ele sabia que quando deixasse a floresta, tudo iria mudar. Quem olhasse de longe pensaria que as Colinas Frias tinham sido acometidas por uma sombra, e nada mais. Enorme engano. Ao passar pelo último galho morto de Dart-Mor, uma escuridão engoliu o pequenino. Ele sentia tudo queimar a sua volta, num calor quase insuportável. Sem pensar duas vezes, o velho continuou andando, embrenhando pelo inferno, sem mais enxergar.

Alcy Filho

Os Contos de Biodak - Três desejos do Oásis






O modo como agia. Seu caminhar e seus cabelos. De olhos inocentes à certeza de que muito havia se perdido. O rio e o dragão levaram a beleza da infância. Tudo mudara. Ao menos assim pensava Yana.

Enquanto saia do Rio Cran, ia tentando se familiarizar com o lugar. Nunca havia conhecido o deserto. Sentia os pés afundando no terreno árido. Os olhos não poderiam mostrar a imensidão de areia, intimista e contrastante ao céu azul. Mesmo cega diante a paisagem, Yana conseguia sentir terror naquele lugar.

Aos poucos a menina foi avançando pelo deserto. Implorava aos céus por chuva, que nunca viria. Tateava o nada em busca de abrigo. Era muito diferente da floresta. Ela conhecia cada galho e cada trilha. Mas no deserto sua cegueira chegava ao ápice. Só lhe restava confiar nos desatentos pés, que continuavam a levá-la para o leste.


Ao avistar o Oásis, Hiugo apertou com força o cajado no peito e desapareceu do deserto.
Quando reapareceu em meio à densa floresta, lembrou do aviso do gólem das Pirâmides de Ferro. “Não se demore nas árvores”. Até a seiva que corria pelas plantas daquele lugar estava amaldiçoada.

O mago Hiugo abaixou o capuz e se apressou a atravessar a mata espessa. Mas quanto mais avançava, mais densa ficava a floresta. Em certos pontos os galhos pareciam estar alocados em forma de teia. Com o cajado em punho, Hiugo proferiu um encantamento que murchou os troncos e galhos a sua volta.

Enquanto caminhava, a floresta ia abrindo caminho, numa sofrida redenção. O mago não parava de pensar na criatura que iria encontrar. Seria verdade tudo aquilo que as inscrições diziam? Esta era a única chance de seu povo sair de Biodak.

Hiugo estava decidido a encontrar o último dragão de Amdu. E diante de seu objetivo ele não percebia que a floresta ia aprisionando-o ao Oásis.


Ghiardo continuava a se guiar pelo estranho odor. Não podia enxergar a destruição que causara na floresta, mas conseguia ver o medo que causava. Um dragão carecia de impor seus domínios e força. Desde a Grande Divisão, o restante dos dragões tinha sucumbido ao poderio humano ou à inteligência élfica. Agora que a chama de Ghiardo começava a apagar, era preciso encontrar o sucessor.

Enquanto avançava sobre as cinzas de Dart-Mor, ele lembrava que não deveria seguir muito ao norte. Nem os dragões ousavam adentrar as Colinas Frias, depois que os tesouros da torre tinham sido liberados. Se o sucessor não se achasse na floresta destruída, teria de rumar direto para as Pirâmides de Ferro.

Era inesperado que as árvores morressem com tanta tranqüilidade. Não pareciam ser como as que cresciam no Oásis do deserto de Amdu. Aquelas eram tão cruéis quanto os dragões. Mas Dart-Mor repousava e aparente paz, enquanto as asas do grande Ghiardo espalhavam as cinzas.

O mais curioso era aquele odor. Não era ódio, mas podia ser sentido. Era tão forte que o havia atraído desde o Oásis. Porém não foi isso que o fez descer das nuvens e aterrissar nos galhos queimados da floresta. Perto da destruição, onde as chamas ainda não haviam consumido as folhas, morava um sentimento de esperança, que vagava pelas árvores e se confundia ao vento. Tal sentimento o repugnava.

Ao olhar para baixo viu o brilho das fadas se espalharem. Pelo visto queriam avisar as outras criaturas sobre o perigo. Isso não seria problema. O instinto de Ghiardo indicava que seu sucessor viria antes que a floresta pudesse revidar.

Quando suas garras encontraram o solo, o dragão pôde sentir que um pouco da esperança havia sucumbido. Um pouco, mas não toda. Ainda havia uma grande parte deste sentimento ali, em pé diante às cinzas. Era esperança unida a um outro sentimento, difícil de ser interpretado pelos dragões: coragem. Tudo isso em uma pequena criatura.

Coragem em forma de menina.


Yana seguia afundando e tropeçando na areia. O sol escaldante não tirava, e sim lhe dava forças. As horas pareciam voar, assim como o corpo de Yana. A menina demorou a perceber que os pés flutuavam e se deixavam levar pelo deserto.

Algo em seu interior queimava e clamava para sair. Seus braços começavam a roçar em troncos e galhos. Os quais a abraçavam e ajudavam a levá-la adiante. Não estava mais no deserto. O lugar era úmido e aconchegante.

Tudo lhe parecia familiar. Lembrava de suas brincadeiras com o irmão, seu povo, sua floresta. No entanto eram apenas lembranças. Ela estava no coração do Oásis de Amdu.

Ao ser deixada em uma grande rocha, ela pôde perceber porque voava. Suas asas descansaram nas raízes que cobriam o lugar. As escamas que revestiam seu corpo arranhavam o chão, mas pouco incomodava. O sono pesado a fazia esquecer de tudo aquilo. Aos poucos esquecia do irmão, do dragão e do rio.

Dias depois, quando acordou, já não era mais humana.

Alcy Filho


Imagem: j0Y-STiCK

Os Contos de Biodak - A Torre de Thur








Os três garotos pararam atrás do último carvalho da floresta que rodeava a colina. De acordo com o mapa de Ordi, faltavam poucos metros para alcançarem o portal. Fazia um frio de congelar os ossos, mas a vista compensava todo e qualquer esforço. A torre mostrava-se ainda mais monstruosa de perto, sendo impossível avistar seu topo.
- Será que é verdade? – disse Amir, tremendo. – Quero dizer, porque é que as pessoas isolaram a torre? Nós conhecemos a lenda.
- Lenda é lenda – disse Ordi, levantando-se e tentando ver através do matagal que rodeava a torre. – As pessoas só deixaram de vir aqui por causa de uma estúpida lenda de demônios. Eu continuo achando que tem um tesouro aqui. Alguém deve ter inventado essa história pra afugentar intrusos.
- Vocês vão entrar ou ficar conversando? – gritou Thur do meio do matagal. – Se não for só lenda, a gente sai devagar, fecha a porta e ninguém fica sabendo.
Os três avançaram até um enorme portal. Devia ter no mínimo dez metros de altura por cinco de comprimento. Era rodeado por runas antigas, diferentes de qualquer língua que os garotos tinham visto. Ordi guardou o mapa no bolso e se aproximou do batente, observando as inscrições.
- Será o que diz? Talvez seja um aviso.
- Com certeza – resmungou Amir, olhando na direção da cidade. Uma fumaça azul subia de cada chaminé. – Deve dizer “Fiquem fora, idiotas”.
Ordi e Thur se entreolharam rindo.
- Sério, é melhor a gente voltar – falou Amir. – Foi até divertido subir a colina até aqui, mas algo me diz que a gente está indo longe demais. Aliás, devem estar atrás da gente.
- Não estão nem ligando pra nós três – disse Thur. – Estão todos se divertindo no festival.
Ele se virou e começou a analisar o portal. Não havia sinal de maçaneta ou fechadura. Era feito em mármore negro e cravejado de esmeraldas. Thur deslizou os dedos pela pedra, tateando cada saliência, tentando achar alguma abertura. Abaixou-se e se deparou com pequenas inscrições na língua dos pequenos.
- Vejam isso!
- “Diga ‘abra’ à sua torre e os tesouros mais profundos serão revelados” – Amir leu, cético.
- Eu disse! – gritou Ordi. – É um tesouro, tem um tesouro aí dentro e basta dizer... – ele se levantou e olhou fixamente para o portal. – Abra!
Nada aconteceu. A não ser uma brisa gélida que soprou a colina.
- Espere aí – murmurou Thur. – Aí diz “Diga ‘abra’ à sua torre”. Entendeu? “Sua”!
Amir e Ordi continuaram sem entender, enquanto Thur coçava a cabeça e tentava encontrar as palavras certas.
- Abra... Torre de... Thur.
O chão tremeu e os garotos caíram assustados. Por todos os lados aves voavam, fugindo dos arredores da torre. O portal balançou, soltando poeira, e começou a se mover para trás. Foi se afastando dos garotos através de um corredor aparentemente sem fim.
Um vento surgiu de dentro da torre, soprando os cabelos dos três.
- O que foi isso? – resmungou Amir.
- E que cheiro horrível é esse? Parece carne podre – falou Thur.
- Ah, deixem de reclamar e vamos procurar o tesouro! – disse Ordi, extasiado.
Ele entrou na torre. Era um longo corredor que dava acesso a várias outras salas. O chão de granito ecoava os passos de Ordi, que tentava imaginar onde o tesouro estaria. Amir e Thur seguiram o garoto.
- Com certeza está atrás de uma dessas salas! – ele se aproximou da porta mais próxima, mas também não tinha maçaneta. Tentou empurrar, derrapando o pé no chão, sem conseguir mover a porta nem um milímetro sequer.
Os garotos começaram a inspecionar cada uma das salas. Não havia inscrição alguma que indicasse como abri-las.
Thur encostou o ouvido em uma delas e escutou um chiado. Na verdade eram vários chiados e grunhidos. O garoto arregalou os olhos e acenou para os irmãos ouvirem também. Eles ficaram ali impressionados com os sons da sala e não perceberam o que começava a invadir o corredor.
Thur sentiu algo espinhoso se enrolar nos seus pés. Olhou pra baixo e viu algo parecido com uma raiz. Ela rodeava sua pele e, com os espinhos, rasgava a carne. Ele gemeu de dor e caiu no chão.
Amir e Ordi perceberam as raízes e tentaram remove-las. Elas saíam de fendas nas paredes e no chão e se concentravam apenas em Thur.
- Vamos, tira! – o garoto chorava de dor. – Essa coisa está cortando a minha perna!
Ordi tirou um canivete do bolso e tentou cortar as raízes.
- É grosso demais!
De repente um estrondo, e uma das portas desmoronou, lançando pedaços de mármore pelo corredor. Amir lacrimejou devido a poeira e tentou enxergar através dos escombros. Um ser bege e robusto, de cerca de três metros de altura, surgiu dos destroços arrastando algo que parecia um gigantesco porrete. Era exatamente do jeito que as histórias contavam. Um genuíno troll das cavernas.
Ele avançou e socou Amir contra a parede. O garoto bateu a cabeça nas pedras e foi jogado ao chão. As raízes já tinham envolvido até a cintura de Thur, que se balançava ferozmente tentando se livrar dos espinhos. Seu sangue ia sujando o chão de pedra enquanto as raízes o puxavam pelo corredor.
Ordi correu em direção a Thur, mas foi impedido pelo porrete do troll que bateu em suas costas, jogando-o contra uma das portas. Em seguida caiu com o rosto no chão gelado. Sentia gosto de sangue na boca e não conseguia mover os braços nem as pernas. Abriu os olhos e viu Amir perto da entrada da torre, desacordado. Fez um esforço gigantesco e virou lentamente o pescoço para a direção oposta. Viu um vulto na escuridão do corredor. Era Thur sendo arrastado, riscando o chão com as unhas, gritando por socorro.
O troll passou por Amir e saiu da torre, rugindo ferozmente em direção à cidade.
As portas ao longo do corredor começaram a se abrir, uma após a outra. Ordi, paralisado, assistiu o fogo tomar conta da torre, enquanto criaturas horrendas saíam das salas. O pequenino fechou os olhos e sentiu as chamas queimarem seu corpo.
Gritos e barulho de asas. Era o que se ouvia nas Colinas Frias.


Darla passou por um grupo de crianças na sala de estar, olhou atentamente. Não estavam ali. O desesperou se apoderou dela. Resolveu procurar no pátio. Uma banda ao centro tocava uma música estridente, enquanto várias pessoas bebiam e dançavam. Dezenas de mesas de madeira se estendiam pelo lugar, onde as pessoas comiam e riam, comemorando a boa caça. Darla avistou Jareh no meio da multidão.
- Você viu as crianças? – ela gritou.
- Sim, várias! – ele riu e entornou uma caneca de cerveja. – Escolha uma!
- Estou falando das nossas crianças!
- Devem estar lá fora brincando com os outros garotos. Fique calma, hoje é dia de festa.
Ela sentiu um aperto no peito. Sabia que eles não estavam no festival. Não podia ser coincidência o mapa sumir junto com as crianças. Com certeza tinham ido à torre.
- Jareh, o mapa sumiu!
Mas ele não escutou. Um tremor abalou o pátio, derrubando mesas e fazendo a música parar. Um silêncio constrangedor instaurou no lugar, enquanto todos se olhavam assustados.
Em seguida um vendaval ensurdecedor invadiu o pátio. O vento pútrido somou terror a todos no lugar. Darla saiu correndo para a rua.
Centenas de pessoas murmuravam na avenida principal. Faixas de comemoração haviam caído. Comida e bebida se espalhavam pelo chão. Todos pareciam desnorteados, com medo do que poderia acontecer em seguida.
- Os meninos passaram por aqui? – Darla perguntou para um grupo de garotos na entrada do pátio.
- Por aqui não – respondeu um deles. – Mas acho que vi Amir na encosta da colina. Ele corria para alcançar alguém.
Um rugido ecoou ao longe. Todos se viraram para a gigantesca torre ao norte. Fogo saía de suas paredes e o céu começava a escurecer. Sons estanhos ecoavam pelas colinas. Sons demoníacos.
O caos dominou a cidade. Pessoas saíam de todos os lugares, pegando crianças pelo caminho, empurrando uns aos outros. A desordem apenas aumentava com todos tentando fugir ao mesmo tempo.
Darla ficou no meio da avenida, paralisada, olhando o norte. Não ouviu Jareh gritar para correr, não ouviu a sinal de alerta. Ela sabia que era sua culpa. Não havia escondido direito o mapa e agora seus filhos tinham acordado os demônios da torre.
Poucos foram os que conseguiram fugir das criaturas que desciam à colina. Poucos escaparam das trevas que há eras esperavam para tomar Nerdick.
Dizem que os que ficaram foram acometidos pela loucura e pelo terror que os demônios causam aos vivos. E não mais morreram, passando a eternidade sob a tortura da torre.
As Colinas Frias se tornaram o que é hoje: um lugar onde nunca é dia. Um lugar dominado pelos tesouros mais profundos da Torre de Thur.

Alcy Filho